CRÔNICA

Orelha, o cachorro que foi vítima de uma violência indescritível

Orelha, o cachorro que foi vítima de uma violência indescritível
Publicado em 27/01/2026 às 2:29

Por Antônio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

Orelha tinha nome de escuta.
Não de latido.
Não de ataque.
Nome de quem presta atenção no mundo.

Enquanto muita gente anda com fone no ouvido e coração em modo avião, Orelha caminhava pela Praia Brava como quem vigia a vida. Orelha sabia das marés, dos passos apressados, das risadas falsas e dos silêncios verdadeiros. Ele era um cachorro comunitário — desses que pertencem a todos e, por isso mesmo, acabam não pertencendo a ninguém quando a covardia resolve passear.

Orelha não mordeu ninguém.
Não roubou nada.
Não ameaçou.
Não era perigoso.

Perigosa foi a mão humana.
Perigoso foi o riso que acompanhou a violência.
Perigoso foi o silêncio depois.

Dizem que foram adolescentes. Mas a crueldade não tem idade — tem cultura. A mesma cultura que ensina que a força vale mais que o cuidado, que o fraco é descartável, que a dor do outro vira entretenimento. Orelha morreu porque alguém aprendeu cedo demais que sentir é fraqueza.

E morreu duas vezes.

Morreu no corpo, espancado até não suportar.
E morreu no espelho da sociedade, que sempre se espanta depois, mas quase nunca se responsabiliza antes.

A cidade chorou. As redes sociais inflamaram. As palavras “justiça” e “indignação” correram soltas como cães sem coleira. Mas Orelha não precisava de hashtags. Precisava de humanidade — coisa rara, artigo de luxo, mais difícil de encontrar que empatia em manchete.

Orelha foi eutanasiado para não sofrer mais. Ironia amarga: precisou morrer com “dignidade” porque viver com humanos virou risco. A violência foi humana. A compaixão, tardia. O cuidado, insuficiente.

Quem matou Orelha não matou só um cachorro.
Matou um símbolo.
Matou a ideia de comunidade.
Matou a esperança de que a cidade escuta quem é frágil.

Hoje, Orelha não escuta mais.
Mas nós precisamos ouvir.

Ouvir o latido que virou denúncia.
Ouvir o silêncio que virou luto.
Ouvir o aviso: quem normaliza a crueldade com animais abre a porta para violências maiores.

Orelha partiu, mas deixou uma pergunta atravessada na garganta do país:

Que tipo de gente estamos criando quando um cachorro indefeso vira alvo de violência?

Que a memória de Orelha não seja apenas tristeza.
Que vire consciência.
Que vire cobrança.
Que vire mudança.

Porque um lugar que não protege seus animais
ainda não aprendeu a ser humano.