CRÔNICA

Crônica em Homenagem a Japaratuba – “O Coração que Bate no Vale”

Crônica em Homenagem a Japaratuba – “O Coração que Bate no Vale”
Publicado em 12/06/2025 às 0:01

Por Antônio Glauber Santana Ferreira

Japaratuba não nasceu por acaso. Foi bordada pelo tempo, costurada com fios de fé, suor e batuque. Ali, no vale sergipano onde o sol parece repousar com mais carinho, a 54 quilômetros da agitação da capital, pulsa um coração antigo – desses que batem em ritmo de maracatu, em silêncio de moqueca ao meio-dia, em cântico de reisado quando a noite se veste de estrela.

É no Alto do Lavradio que tudo começa. Em 1668, quando o mundo ainda tropeçava em suas próprias dores, frades carmelitas subiram o morro fugindo de uma epidemia e, sem saber, pariram a esperança. Erguida ali, a missão germinou em vila, e depois em cidade. Mas Japaratuba sempre foi mais que estatuto: foi refúgio, quilombo, altar e palco. É berço de histórias contadas no fio da oralidade e no compasso da zabumba.

As pedras da cidade não servem apenas para calçar caminhos: elas guardam ecos do mundo. Das pedreiras, brotam fósseis marinhos com cem milhões de anos – provas petrificadas de que ali, um dia, os continentes se abraçaram. E como não se emocionar diante de um rio Prata, cristalino, onde a infância mergulha, os adultos brindam e a vida desacelera para sentir gosto?

Mas Japaratuba, ah, Japaratuba dança. Dança com o Cacumbi e o Reisado, canta com o Pastoril, se curva em reverência à cultura, Japaratuba é celeiro da cultura sergipana. Cada festa é um rito, cada bolinha feita de parafina e água da Festa das Cabacinhas é um pedido de leveza em janeiro. E quando os grupos folclóricos saem pelas ruas, a cidade se transforma em livro vivo: quem não lê, ao menos sente.

No coração da cidade, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Saúde – firme, bela – une céu e chão. Seus sinos conversam com os tambores, suas procissões abraçam o povo do reisado, e o sagrado dança de mãos dadas com o profano, sem conflitos. Porque aqui, fé não se fecha em dogma – ela se veste de fita, de canto, de lembrança.

Japaratuba também é berço de um gênio: Arthur Bispo do Rosário. De suas mãos e devaneios nasceram obras que hoje se perdem nos museus do mundo. Mas sua alma, essa não saiu da cidade. Está ali, fincada como totem na entrada da cidade, lembrando que o artista que enxerga além das grades nasceu onde a arte brota do chão.

Japaratuba é crônica de si mesma. Escreve-se nas esquinas, canta-se nos terreiros, escorre pelos dedos de quem molda barro e pela boca de quem conta histórias na calçada. É pequena no mapa, mas ocupa espaço demais no coração de quem entende que cultura não é vitrine, é raiz.

Que ela continue sendo esse tambor que não cessa, esse rio que não seca, essa voz que não cala. Porque enquanto houver Japaratuba, haverá memória, resistência e beleza. E o Brasil, distraído, talvez não perceba… mas é aqui, neste pedaço de chão sergipano, que pulsa uma das veias mais vivas da nossa identidade.

Japaratuba, terra de todos os tempos, orgulho dos que aqui nasceram e poema aberto para quem souber ouvir.


“Japaratuba não se explica. Se vive.”