CRÔNICA

Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do domingo, dia 16 de março de 2025

Entre fogos, fé e fogo: o domingo que incendiou metáforas.

Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do domingo, dia 16 de março de 2025
Publicado em 16/03/2025 às 23:28

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

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O domingo amanheceu como um altar erguido entre os extremos do humano: a fé e a tragédia, o delírio e a realidade, a terra e o céu. De um lado, multidões peregrinavam em São Cristóvão, carregando no peito a penitência e o alívio, os passos cansados e a esperança renovada. De outro, uma boate virava cinzas na Macedônia do Norte, lembrando que o fogo que aquece também queima, que a luz que ilumina também pode cegar.

A Romaria de Nosso Senhor dos Passos seguiu seu rito, como um relógio que não falha há mais de dois séculos. O suor dos fiéis misturava-se às lágrimas e à poeira das ruas históricas. No Brasil da contradição, enquanto uns caminhavam para a redenção, outros caminhavam sobre brasas políticas em Copacabana, onde a multidão esperada virou um punhado de gente e um punhado de desculpas. O mar revolto da insatisfação popular provou que Bolsonaro talvez esteja remando contra a maré, e que o vento da anistia, por enquanto, não sopra forte o suficiente para mover seu barco.

Enquanto isso, um jovem engenheiro resolveu bancar um São Francisco moderno e desenvolveu um scanner para salvar árvores nas cidades. Um milagre da ciência: não é mais preciso rezar para que elas fiquem de pé em meio às tempestades – basta escanear suas almas botânicas e saber onde podar, como um cirurgião que, ao invés de bisturi, segura um chip.

E por falar em calor, o fogo das especiarias brasileiras aquece pequenos agricultores, que encontraram na pimenta um caminho para temperar a vida. Do ardor da terra ao picante da economia, a plantação se tornou um refúgio lucrativo para aqueles que entenderam que, na lavoura da sobrevivência, colhe quem insiste. Enquanto isso, no Noroeste Paulista, pescadores lançam suas redes não só no rio, mas no turismo, fisgando não apenas peixes, mas sonhos, histórias e dinheiro.

Por fim, a boate incendiada na Macedônia do Norte nos lembrou que a festa pode virar cinzas num piscar de olhos. Entre a música alta e o desespero, entre a euforia e a morte, o fogo foi mais rápido que qualquer grito de socorro. E o que deveria ser um espetáculo virou um obituário coletivo.

O domingo se despediu deixando um rastro de fé e tragédia, de política e ironia, de ciência e suor. O mundo segue como sempre seguiu: cambaleando entre o sagrado e o profano, entre a poesia e a cinza. E nós, espectadores e protagonistas, seguimos escrevendo nossas crônicas diárias, esperando que o próximo domingo seja menos inflamável e mais inspirador.