CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 31 de Janeiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
Janeiro de 2026 resolveu sair de cena como ator de novela das nove: abraçou o pôr do sol, chorou lágrimas de verão e deixou a toalha molhada no varal do calendário. O mês se despede com o drama de quem sabe que exagerou — no calor, nas manchetes, nos sustos — e ainda assim pede bis. Último dia. Último gole. Última gargalhada atravessada.
Comecemos pelo milagre em cápsulas — ou melhor, em canetas. Oito caixas de canetas emagrecedoras foram apreendidas em Cristinápolis, como quem confisca varinhas mágicas num parque de diversões clandestino. Quatro pessoas detidas, duas ideias presas e a dieta do país inteira algemada. A balança, essa fofoqueira de banheiro, suspirou aliviada. Sem nota fiscal, sem autorização da Anvisa, sem pudor: era o emagrecimento express, o “perca peso e perca também a paciência da lei”. O corpo humano virou planilha, a cintura virou fronteira e a saúde pediu CPF. A Polícia Rodoviária Federal fez o papel do nutricionista severo: cortou o açúcar da ilegalidade e recomendou jejum de esperteza. Ironia das ironias: quem queria perder medidas ganhou processo; quem prometia leveza entregou peso — o da consciência.
Enquanto isso, o país respirou com o olho bom da notícia boa. O presidente Lula, aos 80 anos, passou por cirurgia de catarata e saiu enxergando melhor — coisa rara em tempos de miopia política coletiva. Três horas depois, alta médica; três décadas depois, seguimos pedindo alta da cegueira seletiva. O olho esquerdo foi ao conserto e voltou afiado; o direito, que é do povo, espera consulta. O Brasil, esse paciente ansioso, cochichou no corredor: “Tomara que veja tudo — inclusive o que a gente finge não ver”. A catarata caiu como cortina de teatro, e a plateia aplaudiu o foco recuperado. Que a visão limpa alcance também as letras miúdas do contrato social.
Do outro lado do mapa, os Estados Unidos ferveram em protestos. Mais de 300 atos, 50 estados, Washington no centro do palco — um coral de vozes pedindo que o gelo derreta: “ICE fora de todos os lugares”. A imigração virou espelho trincado; cada marcha, um passo tentando colar os cacos. As ruas caminharam, os cartazes gritaram, os tambores bateram como coração em corrida. O mundo, esse condomínio barulhento, discutiu a portaria. Quem entra? Quem sai? Quem limpa a bagunça? A História, cansada de repetir o refrão, pediu remix.
Janeiro, então, fecha a cortina com uma piscadela sarcástica. Entre canetas que prometem milagres e olhos que recuperam a visão, entre fronteiras que se armam e vozes que atravessam, sobra a pergunta que não emagrece nem opera: o que estamos enxergando de verdade? O mês vai embora suado, emocionado, meio poeta, meio palhaço. Deixa no chão as confetes das manchetes e nos entrega fevereiro com um bilhete colado na geladeira da consciência: “Ria, critique, sinta — mas não desligue o olhar”.
Janeiro se despede. O verão continua. A vida, essa cronista impaciente, já está afiando a próxima metáfora.




