CRÕNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 31 de dezembro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
2025 está de malas prontas. Já desceu as escadas com o salto torto do cansaço, deixou a chave em cima da mesa e avisou — sem pedir licença — que a vida segue, mesmo quando a gente ainda está varrendo os confetes do ontem. É o último dia do ano: o calendário suspira, o relógio pigarreia, e o mundo, esse ator exagerado, entra em cena para a derradeira fala.
Em Aracaju, a festa da virada mexe até com o humor do asfalto. Ruas trocam de lugar como cadeiras numa brincadeira de criança, e o trânsito vira um balé desengonçado de buzinas impacientes e pisca-alertas nervosos. O semáforo, coitado, trabalha dobrado, piscando ordens que ninguém obedece. A cidade veste branco, mas o caos insiste em ir de preto — elegante, persistente, tradicional.
Para quem decide fugir do relógio e atravessar fronteiras municipais, o transporte intermunicipal ganha fôlego extra. Ônibus viram arcas de Noé modernas, levando sonhos, esperanças, parentes distantes e aquele peru embrulhado em papel alumínio. O volante gira, o motor ronca, e o desejo coletivo é o mesmo: chegar inteiro ao próximo ano.
Nas estradas, a fiscalização aperta o cerco. A rodovia fica séria, de sobrancelha franzida, como professora em dia de prova final. É a Operação Réveillon lembrando que imprudência não combina com champanhe, e que ultrapassar limites — de velocidade ou de juízo — cobra juros altos demais.
Enquanto isso, no mundo invisível dos papéis timbrados, decisões escorrem como café forte. Dívidas ganham fôlego, prazos se alongam, parcelas se vestem de promessas futuras. O dinheiro, esse personagem arisco, prefere esperar mais um pouco para cair na conta de quem trabalhou. A justiça, às vezes, caminha de chinelo: chega, mas demora.
O INSS, esse gigante cansado de tanto ouvir histórias, descobre que foi enganado no ouvido. Fraudes manipulam números, apertam botões errados, fazem do atendimento um teatro de sombras. O segurado espera na linha, ouvindo música repetida, enquanto alguém ajusta indicadores como quem ajeita maquiagem diante do espelho rachado. O silêncio da espera dói mais que a notícia.
Lá fora, em Buenos Aires, o calor grita. O sol castiga, e a luz resolve tirar folga. Um apagão mergulha quase um milhão de pessoas na escuridão, como se o dia tivesse esquecido de amanhecer. Ventiladores param, paciência evapora, e o suor vira idioma universal. A energia volta aos poucos, tímida, pedindo desculpas em parcelas.
E na São Silvestre, o corpo humano desafia o calendário. Tanzaniana e etíope cruzam a linha como se o tempo fosse apenas uma sugestão. Os brasileiros chegam logo atrás em 3° lugar, orgulhosos, ofegantes, provando que persistência também sobe pódio. A rua vira pista, o coração vira tambor, e o último dia do ano termina correndo — porque parar nunca foi opção.
Assim se despede 2025: um ano que riu quando devia chorar, chorou quando devia rir e, mesmo tropeçando, seguiu em frente. Agora, ele fecha a porta devagar, para não acordar o amanhã. Que 2026 encontre a casa arrumada — ou ao menos o coração disposto a tentar outra vez.




