CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 30 de dezembro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
Sente-se. Respire. O penúltimo dia de 2025 pede cadeira, silêncio e um coração disposto a tropeçar em metáforas. O ano está de malas prontas, mas ainda faz questão de deixar bilhetes espalhados pela casa — uns escritos com lágrima, outros com deboche, alguns com cheiro de pólvora moral.
O dia amanheceu latindo dor. Em Aracaju, um casal de cães e seis filhotes foram resgatados do porão da crueldade humana. Estavam confinados como se o amor tivesse sido trancado do lado de fora, infestados de carrapatos — esses vampiros microscópicos da indiferença — e com marcas na pele que pareciam assinaturas da violência. O tutor foi preso em flagrante… e solto no dia seguinte. A justiça, às vezes, usa coleira frouxa. Late alto no discurso, mas cochila na prática. Os cães foram libertados; a impunidade, não. E o ano, constrangido, fingiu que não viu.
Enquanto isso, a cidade se prepara para vestir branco e dançar sobre os próprios problemas. Réveillon na Orla da Atalaia: fogos prometem apagar o passado com luz emprestada. A SMTT muda os itinerários dos ônibus, como quem reorganiza o tabuleiro para que a esperança chegue atrasada, mas chegue. Surgem os “Corujões”, ônibus noturnos que vigiam a madrugada entre meia-noite e quatro. Corujas de ferro, olhos acesos, levando sonhos bêbados para casa e devolvendo trabalhadores ao cansaço de sempre. O trânsito dança, a cidade pisca, e o ano velho observa, ciumento.
No bolso do contribuinte, uma notícia com cheiro de gelo: o IPTU segue congelado. A prefeitura garante. Congelado — palavra bonita, que soa como abraço no calor do imposto. Pode pagar à vista, com desconto, ou parcelar a dor em suaves prestações. O boleto, esse poema sem rima, continua sendo lido com atenção religiosa.
Nos Correios, finalmente, a carta chegou. O TST resolveu o impasse: gratificação de 70% nas férias e reajuste de 5,1%. Os heróis grevistas começam a voltar ao trabalho, como rios que retomam o leito depois da cheia. O carteiro sorri com o uniforme amarrotado de luta. A justiça, desta vez, carimbou esperança no envelope.
Já na ala hospitalar do noticiário, Bolsonaro segue soluçando. O corpo, esse diário que não mente, insiste em interromper o discurso. CPAP, fisioterapia respiratória, endoscopia marcada. O soluço parece metáfora involuntária: a história engasga, tenta falar, mas o ar não passa direito. O ano observa, irônico, e anota tudo.
Em Brasília, Daniel Vorcaro chega, entra pela garagem do Supremo — passagem simbólica, quase literária. O carro desce ao subsolo da República, onde verdades costumam ecoar mais alto. Depoimento começa. A democracia, sentada na sala de espera, rola os olhos e pede café forte.
Do outro lado do oceano, em Lisboa, filas de sete horas. O novo sistema que aboliu o carimbo nos passaportes travou a imigração. O mundo quis ser digital demais e esqueceu que gente não carrega código de barras na alma. Turistas envelheceram na fila. Alguns chegaram jovens e saíram com barba branca e histórias para contar.
Na Alemanha, ladrões abriram mais de três mil cofres com furadeira e levaram 30 milhões de euros. Um assalto industrial à fé no sistema. O dinheiro, esse animal arisco, fugiu mais uma vez pela porta dos fundos. Cofres choraram em silêncio metálico.
Assim foi o dia 30 de dezembro: um mosaico de latidos, fogos, boletos, soluços, filas e cofres violados. O penúltimo suspiro de 2025 não foi suave. Foi um suspiro com pigarro, ironia e um pedido tímido de desculpas.
O ano velho fecha a porta devagar, olhando para trás, como quem sabe que deixou a luz acesa e o caos espalhado. Amanhã tem virada, promessa nova, roupa branca e fé reciclada. Mas hoje — hoje o mundo ainda late, soluça e anda de ônibus noturno.
E nós? Nós seguimos lendo. Porque entender o mundo, às vezes, é o único ato de resistência que cabe no bolso.




