CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 30 de Agosto de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 30 de Agosto de 2025
Publicado em 31/08/2025 às 0:06

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE

O sábado, esse cronista preguiçoso que gosta de cochilar entre o café e o almoço, acordou com um estrondo metálico. Na BR-101, em Estância, uma carreta tombou como se fosse um gigante bêbado escorregando no próprio passo. Estruturas metálicas se espalharam pelo asfalto como ossos de ferro, e o óleo derramado virou lágrima escura tingindo a estrada. O trânsito, claro, virou teatro grego: carros parados, buzinas encenando tragédias, e motoristas interpretando a fúria dos deuses em pleno calor nordestino. E lá estava o Corpo de Bombeiros, mais uma vez, ensaiando o papel dos heróis que nunca pedem aplausos, mas recebem aplausos silenciosos.

Enquanto isso, no palco sombrio da Justiça, a médica acusada de arquitetar o fim do marido retorna ao presídio, como quem volta a um quarto maldito onde a cama não é de flores, mas de grades frias. A ironia é que a medicina, arte de salvar vidas, se cruza aqui com o verbo matar, e o jaleco branco se mancha de sangue imaginário. O marido morto, advogado, deve estar nos autos eternos da memória, pedindo justiça com as mãos invisíveis. A vida, essa senhora cheia de sarcasmo, gosta de brincar com as profissões: quem salva, mata; quem defende, é defendido pela eternidade.

Mas se há um consolo nesse sábado trágico, ele veio em forma de rabo abanando. Em Aracaju, cerca de 20 cães e gatos levantaram a pata e a esperança em uma campanha de adoção. Entre latidos e miados, ouviam-se sussurros de um futuro melhor: “me leve para casa e eu prometo amor incondicional”. É bonito pensar que, num país onde a corrupção é adotada por políticos e a violência por manchetes, alguém ainda escolhe adotar o que há de mais puro: um animal sem sobrenome, mas cheio de afeto.

E como se não bastasse a vida real, ela nos roubou o mestre das palavras: Luís Fernando Verissimo. Ah, Verissimo, que agora escreve do outro lado, deve estar gargalhando com Érico, seu pai, num bar cósmico de Porto Alegre, onde os copos são cheios de crônicas e os garçons servem ironias bem geladas. Morreu aos 88 anos, mas deixou a eternidade em cada frase que nos fazia rir do próprio ridículo. Sua despedida foi restrita à família, mas cada leitor brasileiro hoje é órfão, cada crônica é vela acesa, cada riso é um adeus.

No tribunal da política, Moraes decidiu ampliar o monitoramento na casa de Bolsonaro. Carros revistados, olhares farejando como cães policiais, e o quintal transformado em vitrine de vigilância. O ex-presidente, que adorava se dizer caçado, agora vive debaixo do olhar de águia da Justiça. Ironia das ironias: quem antes queria vigiar a vida alheia nas redes sociais agora tem a própria garagem transformada em “Big Brother Brasil – edição STF”.

Já a Mega-Sena, essa amante traiçoeira, resolveu brincar de esfinge. Ninguém decifrou seus números enigmáticos, e o prêmio cresceu, vaidoso, acumulando R$ 14 milhões. Para alguns, esperança; para outros, apenas mais um delírio. No fundo, a Mega-Sena é como a política brasileira: promete muito, entrega pouco, mas a fila da aposta nunca deixa de crescer.

Enquanto isso, o chão tremeu em Nevada, nos Estados Unidos. Um terremoto de magnitude 4,7 lembrou aos americanos que a terra também sabe protestar, que nem tudo pode ser controlado por dólar e democracia made in Hollywood. Tremor leve, mas aviso pesado: a terra, quando sacode, fala a língua universal do medo.

E, no outro canto do mundo, em Sana, o primeiro-ministro do governo Houthi e seus ministros foram mortos em ataque israelense. A geopolítica se alimenta de sangue, e cada bomba lançada é mais uma palavra riscada no dicionário da humanidade. O Oriente Médio continua sendo o tabuleiro onde reis e peões são de carne, e não de madeira.


Epílogo

Neste 30 de agosto, o Brasil tropeçou no ferro, chorou a perda de um cronista e riu dos bichinhos que encontraram novos lares. Foi um dia onde a morte e a esperança caminharam de mãos dadas: uma carreta tombou, mas um cão encontrou família; um escritor se despediu, mas sua palavra ficou para sempre; um político foi vigiado, mas um leitor ainda sonha com a sorte.

E eu, Professor Glauber, fico aqui, com a sensação de que a vida é uma grande crônica escrita a lápis: às vezes borrada pelo óleo na estrada, às vezes iluminada pelo olhar de um cachorro adotado. E, quando pensamos que já entendemos o enredo, ela ri da nossa ingenuidade e vira a página.


Epílogo Extra – A Verissimo

Luís Fernando,
cronista de ironias sutis e gargalhadas discretas,
tu partiste como quem fecha um livro,
mas deixou cada página aberta em nossas estantes da memória.

Teu humor era bisturi: cortava sem matar,
abria feridas para mostrar que rir é também sangrar menos.
Tu pegaste o cotidiano — esse pão duro, esse café requentado,
essa vizinha fofoqueira, esse Brasil atolado em contradições —
e transformaste em banquete literário.

Hoje, ao te sepultarem em Porto Alegre,
o país inteiro se ajoelha diante da tua palavra.
Não houve salvas de canhão,
mas houve salvas de riso, de lágrimas,
de leitores que aprenderam contigo
que a vida é séria demais para ser levada a sério.

És agora verbo eterno,
sorriso em parágrafo,
sarcasmo em epitáfio.
A morte, coitada, quis te calar,
mas só conseguiu te eternizar.

Descansa, Verissimo.
Do outro lado, teu pai Érico deve ter te recebido
com um brinde de crônica e um abraço de eternidade.
E nós, cá embaixo,
seguiremos repetindo teu milagre:
rir, mesmo quando tudo pede choro.