CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 29 de Setembro de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 29 de Setembro de 2025
Publicado em 30/09/2025 às 6:08

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE

O dia amanheceu com ares de novela trágico-cômica, dessas em que o roteiro parece ter sido escrito por um dramaturgo bêbado, que mistura lágrimas, sarcasmo e terremotos em um mesmo capítulo. Logo cedo, a notícia da morte de Paulo Soares, o eterno “Amigão”, fez o coração esportivo ficar em silêncio — e que silêncio! Não era apenas o adeus de um jornalista, era como se desligassem o microfone do narrador da vida. Ele que sempre gritava “bola rolando!”, agora repousa onde não há impedimento nem VAR. Fica a ironia cruel: vivemos em uma época em que tantos falam sem dizer nada, mas quando parte um homem que sabia narrar com a alma, o mundo parece ficar mudo. A voz do esporte se calou.

Já em Sergipe o chão tremeu em Graccho Cardoso. Não foi a fúria de um deus mitológico, nem a pisada de um elefante perdido no sertão, mas a lembrança de que a terra, essa senhora debaixo de nossos pés, também se cansa de sustentar tanto desatino humano. Foi um abalo pequeno, dizem os especialistas do sismológico, mas para quem sentiu a cama balançar às seis da manhã, parecia o apocalipse anunciando “estou só ensaiando, guardem os terços e os capacetes.”

Enquanto Sergipe tremia por baixo, em Brasília tremia por cima: Edson Fachin, com toga mais pesada que mochila de estudante em véspera de prova, assumiu a presidência do STF. A sucessão seguiu a liturgia da antiguidade, como se toga fosse vinho que melhora com o tempo de prateleira. Fachin agora decide a pauta, o destino e, quem sabe, a velocidade com que a Justiça anda — ou manca. É o maestro da orquestra onde cada ministro toca um instrumento próprio, e o concerto raramente é harmônico: é um jazz dissonante, mas é o que temos para hoje.

Do outro lado do Atlântico, em Portugal, brasileiros descobrem que o fado pode ser mais cruel que melancólico: ataques racistas online, ameaças de morte, ofensas cuspidas com o veneno digital da ultradireita. A Comissão Europeia pediu medidas mais firmes contra o discurso de ódio, mas até que venham, cada postagem é um tijolo arremessado na cara da dignidade. Uma jornalista brasileira denunciou um agressor e recebeu, como resposta, uma recompensa pela própria cabeça — sinal de que, no mercado da barbárie, a vida vale menos que um celular usado.

E, como se o mundo já não fosse suficientemente surreal, os EUA apareceram com um “plano de paz” para Gaza. Paz, aqui, tem cheiro de pólvora reciclada e sotaque de Trump, que reaparece como conselheiro-mor de uma região que nem sua cabeleira artificial daria conta de pentear. O plano fala em anistia ao Hamas, possibilidade de Estado palestino e, claro, Trump presidindo o conselho — porque paz, na visão americana, precisa sempre de um xerife com pistola engatilhada. Israel aceitou, Hamas não respondeu. Talvez porque, para quem já vive entre bombas, promessas soem como balas com purpurina: brilham, mas ainda perfuram.

Entre tremores da terra, tremores da Justiça, tremores de ódio e tremores da geopolítica, o dia 29 de setembro nos lembra que viver é atravessar placas tectônicas invisíveis. O chão se move, a toga pesa, o ódio cresce, e a paz é rascunho rabiscado por mãos que nunca pisaram no campo minado da vida real.

E nós, pequenos mortais, ficamos a escolher: rezar para que o próximo abalo não derrube o telhado, ou rir da ironia de viver em um mundo onde até a paz vem em parcelas, com juros e presidida por Trump.

No fim das contas, talvez o tremor mais perigoso seja aquele que não sacode prédios, mas consciências: a acomodação diante da injustiça. Esse, sim, derruba civilizações inteiras sem que um copo sequer balance na mesa.