CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 28 de Setembro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
O Rio Sergipe, mais uma vez, mostrou seus dentes de água. Engoliu um menino de 15 anos como quem recolhe um segredo para guardar nas profundezas, e só o devolveu quando o silêncio já havia virado grito nas margens. O rio não é apenas correnteza: é um cronista cruel, que escreve com ondas os capítulos da dor sergipana. Quem passa pelo Bairro Industrial pode ouvir o rio sussurrar: “eu não perdoo descuidos, sou abismo disfarçado de espelho.” E nós, humanos, insistimos em brincar de Narciso, mirando o reflexo e esquecendo que debaixo da superfície moram jacarés invisíveis chamados tragédia.
Enquanto isso, em Brasília, Lula caminhou, correu. Não de investigações, não da oposição, mas de tênis e camiseta, com suor de maratonista e ironia de quem sabe transformar passos em metáforas políticas. Ao participar de uma caminhada em comemoração aos 95 anos do Ministério da Educação (MEC) em Brasília neste domingo, cutucou Bolsonaro com a sutileza de um xadrezista: “motociata não é esporte, camarada.” O asfalto virou palanque, e cada quilômetro percorrido foi um artigo da Constituição em movimento. Soberania nacional agora calça tênis esportivo, bebe isotônico e sorri para a plateia. A cena é tão cômica quanto simbólica: enquanto uns aceleram motos no ronco da nostalgia, outros aquecem panturrilhas no compasso do futuro.
Do outro lado do continente, porém, a ironia virou pólvora. Nos EUA, uma igreja mórmon, que deveria ser refúgio de oração, virou campo de batalha. Quatro mortos, oito feridos e um incêndio onde antes havia hinos. O atirador não levou apenas balas no coldre, mas trouxe consigo o retrato daquilo que a América insiste em exportar: a crença de que a violência é um direito constitucional, quase um mandamento sagrado. Donald Trump, com a fleuma de quem diz o óbvio, declarou que a “epidemia de violência precisa acabar.” Palavras tão leves quanto fumaça de incenso, mas que jamais atravessam a muralha erguida pela indústria de armas. É como se um incendiário pedisse que a floresta parasse de queimar, mas continuasse vendendo fósforos na esquina.
A notícia ainda se repetiu em Michigan, como se a tragédia fosse uma franquia de fast-food: tiroteio aqui, tiroteio ali, vidas embaladas em caixas descartáveis. A ironia sangra: na terra da liberdade, até a bala é livre. E nós, espectadores globais, ficamos a olhar para esse espetáculo grotesco como quem vê um circo pegar fogo e aplaude a orquestra tocando até o último clarinete.
O domingo, portanto, vestiu-se de contrastes. No mesmo dia em que um rio devolveu um corpo, um presidente correu pelo asfalto e um país inteiro rezou sob tiros, percebemos que o mundo é um palco onde a comédia e a tragédia dividem camarim. Rimos de nervoso, choramos de costume.
E aqui me despeço, caro leitor, com a sensação de que a vida é feita dessa coreografia insana: um rio que engole, um presidente que corre, uma igreja que arde. Entre a água, o suor e o fogo, resta-nos a esperança de que um dia sejamos mais do que espectadores: que aprendamos a ser autores de um roteiro menos cruel.




