CRÔNICA
Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 28 de março de 2025
(Por Antônio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE)
Na manhã do dia 28 de março de 2025, o Brasil acordou com o café ralo, a esperança requentada e o jornal servindo um cardápio de notícias com gosto de fel, ironia e fritura de promessas velhas. Era sexta-feira, mas o país parecia uma segunda-feira de TPM cívica e enxaqueca democrática.
Lá na Zona Norte de Aracaju, o povo cansou de sussurrar suas dores para o asfalto rachado e resolveu gritar para os céus, que andam calados feito político em dia de escândalo. A comunidade, que vive entre buracos e a promessa de que “agora vai”, fez do protesto sua poesia de resistência. Veio o secretário da articulação política, prometendo escutar na segunda. Segunda! O dia mundial das desculpas. Porque, claro, o buraco não é prioridade numa sexta — ainda mais quando a sexta promete cerveja e selfie com tapinha nas costas de concreto.
Enquanto isso, o velho PIS/Pasep acordou de um coma burocrático. Como se fosse um parente distante que deixou uma herança esquecida numa conta mofada, o governo abriu os cofres para alguns felizardos. Mas com regras, prazos e aquele tradicional “peça hoje e talvez receba amanhã”. O povo correu pro banco como quem corre pra beirada do mar na maré cheia, mas há quem continue ilhado pela ignorância digital, sem saber que o dinheiro existe, esperando um pombo-correio do Ministério da Esperança.
E falando em petróleo, três homens foram presos por vandalizar poços em Carmópolis. A terra que já jorrou riqueza agora chora óleo escorrido e segurança vazada. Os suspeitos, segundo a polícia, vinham furtando desde o Carnaval. Enquanto uns sambam com confete no pescoço, outros desfilam com peças de petróleo no porta-malas. Roubam o presente debaixo do nariz do passado — e ainda deixam o futuro no prejuízo.
Já em Brasília, palco onde a realidade se mistura com a ficção, Daniel Silveira teve mais um capítulo de sua ópera bufônica encerrado sem aplausos. O STF, com seu martelo de justiça em punho, mandou recolher o rapaz que insiste em flertar com a ilegalidade como se ela fosse musa de seus delírios patrióticos. E por falar em delírio, Alexandre de Moraes também mandou arquivar o caso do cartão de vacina do ex-presidente Bolsonaro. Faltaram provas. Faltaram certezas. Mas sobrou aquele silêncio cúmplice, que faz a verdade parecer uma brisa tímida diante da ventania da impunidade.
Do outro lado do Atlântico, o planeta também fervia. Trump, o eterno incendiário de tarifas, resolveu meter lenha no comércio internacional. A Alemanha respondeu com altivez germânica: “não cederemos”. A China chiou. E a Europa ajustou a gravata, preparando-se para mais um baile de sanções e ressentimentos. O mundo parece uma novela mexicana: todo mundo grita, mas ninguém se entende.
E nós, aqui, no meio da buraqueira, do saque digital, das farsas em série e da diplomacia esquentada, seguimos tentando acreditar. Acreditar que segunda-feira trará mais do que promessas. Que o poço de Carmópolis voltará a brotar dignidade. Que o cartão de vacina não vire carta marcada da impunidade. Que o dinheiro esquecido no PIS/Pasep sirva, ao menos, para comprar dignidade à prestação.
Porque o Brasil, esse país cheio de metáforas, não é feito só de políticos que prometem. É feito de gente que protesta com cartazes molhados de suor, de idosos que digitam CPF em aplicativos travados, de professores que sonham com aulas sem goteira e de poetas que fazem crônicas com o que sobra das manchetes.
Hoje, o Brasil se vestiu de ironia. Amanhã, quem sabe, ele amanhece em poesia.




