CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 27 de Agosto de 2025
27 de agosto de 2025: Um banquete de absurdos : O porco de Pirambu no litoral norte do estado de Sergipe virou cronista involuntário, o povo sem água virou metáfora e o mundo continua girando como uma roleta russa carregada.
“Entre Porcos, Pontes e Bombas: o Circo Trágico de 27 de Agosto”
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
Abram o livro da vida, esse evangelho de páginas manchadas pelo suor e pela desfaçatez humana, e leiam comigo as linhas desta quarta-feira, 27 de agosto de 2025.
Comecemos em Pirambu, onde um porco, talvez revoltado com a falta de água, resolveu declarar guerra ao automóvel alheio. Fez do carro uma arena de touradas e, no final, deixou sua assinatura em lataria amassada. O dono ficou no prejuízo, e o suíno saiu ovacionado pelo sindicato dos revoltados da roça. Há quem diga que o bicho apenas confundiu o carro com uma porca reluzente, pronta para o cio mecânico. Eis a vida: até os animais praticam a sátira.
Mas o drama maior não é o porco, é a seca das torneiras. Duas semanas e meia sem água em Pirambu. O povo reza, espera e amaldiçoa a Iguá Sergipe, empresa que, em teoria, distribui água. Na prática, distribui sede. A incompetência virou cachoeira, mas de cinismo: enquanto o povo junta gotas em baldes, a concessionária nada em lucros. Pirambu, ironicamente cercada de mar, mas com a língua rachada como um sertão esquecido.
Aracaju também tem capítulo neste romance tragicômico: a ponte Aracaju-Barra parcialmente interditada. É como se o destino dissesse: “Vocês já estão acostumados com os desvios políticos, então aguentem mais um desvio na estrada.” A capital vive a metáfora de um país que caminha mancando, apoiado em muletas enferrujadas.
E entre buracos e vazios, surge o Ministério da Justiça com um portal para unificar dados de desaparecidos. Bonito gesto: transformar dor em planilha. Uma mãe que busca o filho agora poderá digitar o nome no buscador, como quem procura promoção de geladeira. Digitalizamos a saudade, arquivamos a ausência. Um clique que aproxima, mas não devolve o abraço.
No Senado, outro espetáculo. Aprovaram um projeto contra a adultização precoce de crianças na internet. Um passo civilizatório, mas só depois que um vídeo viralizou. A infância agora depende de likes para sobreviver. Não foi a Constituição, não foi o Estatuto da Criança — foi o algoritmo. O destino de uma geração decidido entre um “curtir” e um “compartilhar”.
Enquanto isso, lá longe, na Ucrânia, mísseis russos caíram como trovões malditos sobre Kiev. Dezessete mortos, quatro deles crianças. Zelensky grita ao mundo o óbvio: assassinato deliberado. A guerra, essa velha senhora de vestidos manchados de pólvora, segue dançando sobre corpos inocentes, enquanto refinarias explodem de um lado e berços silenciam do outro.
E se no front a pólvora grita, no México o espetáculo é outro: senadores trocando agressões em plena sessão. O parlamento virou ringue, o microfone, taco de beisebol, e a democracia, espectadora de camarote. Talvez o povo, cansado de discursos vazios, agradeça: pelo menos dessa vez disseram com os punhos o que nunca confessariam em palavras.
Final
Assim é o dia 27 de agosto de 2025: um banquete de absurdos temperados com lágrimas, sarcasmo e ironia. O porco de Pirambu virou cronista involuntário, o povo sem água virou metáfora de um país seco de esperança, e o mundo continua girando como uma roleta russa carregada.
Fecho o livro por hoje. E fica a pergunta: quem está mais perdido — os desaparecidos nas estatísticas ou nós, sobreviventes, afogados em notícias que nos roubam a inocência dia após dia?
Talvez a resposta esteja no silêncio das torneiras, no grito das bombas ou no mugido do porco justiceiro. Talvez a resposta esteja, ironicamente, dentro de nós — mas esquecemos a senha para acessar.




