CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 26 de Janeiro de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 26 de Janeiro de 2026
Publicado em 27/01/2026 às 2:21

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

Há dias que acordam com cheiro de incenso antigo e barulho de notificação nova. O dia 26 de janeiro de 2026 abriu os olhos assim: metade rosário, metade ringtone; metade pedra centenária, metade wi-fi inquieto. O mundo, esse menino levado, decidiu brincar de paradoxo.

No alto do morro do São Gonçalo, o Cristo de São Cristóvão completou cem anos. Cem. Um século inteiro de braços abertos para a cidade, como quem diz “entra, que a casa é tua”, enquanto a rodovia passa lá embaixo feito rio de aço, levando e trazendo pressa. O Cristo viu o bonde virar ônibus, o rádio virar feed, o silêncio virar debate. Viu promessas envelhecerem mais rápido que gente e esperanças insistirem em nascer de novo. É um Cristo que não posa para selfie: ele vigia. Não grita: sussurra. Não corre: permanece. Um Cristo mais velho que o do Rio, como um avô que sorri de canto e cochicha: “Calma, eu já vi esse filme.”

Enquanto a pedra celebra o tempo, o tempo brinca de ironia com a fé dos homens. O ex-presidente, que outrora rezou discursos e pregou palanques, agora pede pastor… e depois padre. A fé virou fila, senha, protocolo. O céu, ao que parece, exige autorização. Deus observa, coça a barba metafórica e pergunta: “Vocês decidiram a placa da porta?” É o ecumenismo por necessidade, o rosário por estratégia, a oração com carimbo. O sagrado virou expediente — e o expediente fecha às cinco.

Do outro lado do mapa, o telefone toca. Cinquenta minutos de conversa entre Lula e Trump. Cinquenta minutos: um rosário laico de minutos contados, cada um com sua conta a pagar. A Venezuela entra na linha como parente distante que todo mundo cita, ninguém resolve. Combinam visita, trocam sorrisos diplomáticos invisíveis, prometem paz com data a definir. A paz, coitada, fica na sala de espera, lendo revista velha. O mundo governa por chamada perdida.

Na França, o debate ferve como café esquecido no fogo: redes sociais para menores de 15 anos, sim ou não? Celular na escola, entra ou fica do lado de fora? Macron pressiona, deputados ponderam, adolescentes atualizam. É a batalha entre o dedo e o cérebro, entre o toque e o tempo. A escola tenta ensinar silêncio num mundo que grita; tenta alfabetizar a atenção num oceano de distrações. Proibir é gesto duro; liberar é aposta arriscada. No meio, a infância — essa terra frágil — pedindo sombra.

E assim o dia passa, como vento que mistura pó de estrada com cheiro de vela. Um Cristo centenário lembra que a história precisa de pausa; a política insiste em correr; a fé muda de roupa conforme a estação; a tecnologia exige limites como criança testando bordas. O mundo é esse teatro onde a pedra observa e o homem improvisa.

Talvez a lição venha do morro: braços abertos não são licença para empurrões. Talvez venha do relógio: nem tudo se resolve em cinquenta minutos. Talvez venha da escola: o silêncio também ensina. Ou talvez venha da fé: menos carimbo, mais cuidado.

No fim do dia, São Cristóvão continua ali, firme, colecionando amanheceres. E nós, apressados, seguimos aprendendo — aos tropeços — que o tempo não se curva ao feed, mas a esperança, teimosa, sempre encontra um jeito de subir o morro.