CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 25 de janeiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
Olá, caro leitor, cara leitora. Sou o professor Antonio Glauber, direto de Japaratuba, interior de Sergipe, onde o domingo amanheceu com cheiro de café passado e o mundo resolveu desfilar suas contradições em plena praça pública. Ajuste o banco da memória, afivele o cinto da ironia e venha: o noticiário de hoje é um carrossel que gira ao som do triângulo, do trovão e do carimbo da alfândega.
No Complexo Cultural Gonzagão, a quadrilha Pioneiros da Roça abriu a temporada de 2026 como quem abre a janela do tempo: ensaio-show, passos marcados, suor com sotaque de milho verde e tradição. Ali, o chão aprende a dançar com os pés e a memória veste saia rodada. O forró não é apenas ritmo — é resistência com glitter, é a cultura dizendo “eu fico” enquanto o calendário tenta empurrar a pressa. Cada giro era um manifesto silencioso: dançar também é protestar contra o esquecimento.
Mas o céu, esse editor impaciente, resolveu publicar sua manchete em letras de raio. Em Brasília, na área central, um relâmpago caiu sobre a concentração de apoiadores do ex-presidente, reunidos sob chuva grossa, esperando passeata como quem espera ônibus atrasado. O trovão não pediu filiação partidária: veio democrático, elétrico, sem discurso. O céu desceu a mão — e não foi figurativa. Oito feridos graves, corpos assustados, hospitais como parênteses de emergência. A natureza, cansada de hashtags, resolveu comentar o ato com um sublinhado luminoso. Ironia hiperbólica? Talvez. Trágica? Sem dúvida. O clima, esse cronista antigo, escreveu com faísca o que a política insiste em não ler.
Enquanto isso, na fronteira, canetas emagrecedoras ilegais atravessam o mapa como formigas invisíveis, prometendo atalhos ao espelho e cobrando juros no corpo. O contrabando cresce, o risco também. O desejo, faminto, aceita tinta falsa como se fosse milagre. A saúde vira refém do “antes e depois”, e o fígado paga a conta do “agora”. O mercado clandestino sussurra: “emagreça rápido”. O corpo responde: “não sou laboratório”. Mas quem escuta o corpo quando a pressa grita?
Do outro lado do mundo, a Justiça norte-americana puxa o freio de mão e bloqueia a tentativa de encerrar o status legal de milhares de imigrantes. Números marcham: bilhões para fiscalizar, muros invisíveis para conter sonhos visíveis. O mapa endurece, o passaporte treme, e a esperança aprende a atravessar ruas com documentos no bolso e medo no peito. A imigração vira cifra; o humano, rodapé. O Estado investe em cercas; a vida insiste em pontes.
E assim foi o domingo: o forró abraçando o futuro, o céu assinando editoriais, a fronteira vendendo promessas em cápsulas, a Justiça tentando lembrar que gente não é planilha. Entre o triângulo e o trovão, a crônica pede pausa. Respira. O Brasil — esse personagem de múltiplas vozes — dança quando pode, apanha quando não deve, compra atalhos quando desconfia do caminho, migra quando a casa aperta.
Que a cultura continue abrindo temporadas. Que o céu nos alerte sem ferir. Que o corpo não vire contrabando. Que a Justiça não esqueça o nome próprio de quem atravessa. E que nós, leitores, não desliguemos a sensibilidade quando o volume da ironia sobe.
Domingo passou. A semana vem aí. E a esperança, teimosa, ensaia mais um passo.




