CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 25 de dezembro de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 25 de dezembro de 2025
Publicado em 26/12/2025 às 22:37

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

O dia 25 amanheceu em Japaratuba, celeiro da cultura sergipana, com cheiro de incenso, suor de povo e memória em marcha. Mais de um século de tradição não cabe em museu: escapa pelas ruas, tropeça nos paralelepípedos, dança nos olhos. A busca do mastro e o hasteamento da bandeira de São Benedito são o povo em movimento — fé de pés descalços, história de braços erguidos. A cidade não envelhece; ela se renova no gesto repetido, como quem reza com o corpo inteiro. O tempo, ali, aprende a respeitar o calendário do sagrado.

Enquanto isso, o verão afia os dentes no litoral. Os bombeiros falam com a voz da prudência, mas o mar — esse poeta traiçoeiro — responde com metáforas salgadas. O sol seduz, a onda cochicha promessas, e a correnteza, sorrateira, ensina que beleza também cobra pedágio. Entre boias e apitos, a vida pede cuidado; a alegria, freio; e o descanso, responsabilidade.

Nos hospitais, o noticiário veste jaleco. “Cirurgia de Bolsonaro finalizada com sucesso”, anuncia o boletim, como quem bate o sino da normalidade. Três horas e meia de bisturi, hérnia corrigida, quarto garantido — e a política, essa paciente crônica, segue em observação permanente. O corpo costurado descansa; o país, não. Há sempre um ponto que insiste em inflamar, um fio solto na narrativa nacional.

Do outro lado do mapa, a Califórnia vira aquarela borrada. A chuva cai sem pedir licença, a encosta cede, e a casa aprende a flutuar sem vocação. Sete milhões de pessoas vivem na gramática do risco, onde o verbo “ficar” é provisório e o substantivo “lar” precisa de rodapé. A natureza, quando fala alto, dispensa legenda: lembra que progresso sem cuidado é castelo de areia.

Na Venezuela, as grades rangem como portas de esperança tardia. Sessenta opositores voltam a respirar ar menos vigiado — alívio que chega com vírgulas, não com ponto final. Depois de eleições em nuvem de suspeitas, a liberdade sai em conta-gotas, como se fosse favor. O poder, ali, ensaia magnanimidade; a história, cética, pede provas.

E assim passou o Natal do mundo: fé em procissão, mar em alerta, bisturi em manchete, chuva em descontrole, grades em negociação. O dia 25 não foi só peru e laço vermelho; foi espelho. Mostrou que tradição é resistência, cuidado é urgência, saúde é notícia, clima é política e liberdade não é presente — é conquista. No fim, Japaratuba segue cantando, o mar segue chamando, a Terra segue cobrando, e nós seguimos aprendendo, aos tropeços, que viver exige mais que festa: exige consciência, coragem e um pouco de silêncio para ouvir o que o tempo insiste em dizer.