CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 23 de janeiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
Vamos que vamos, leitores e leitoras. Sexta-feira chegou de sandália rasteira, mas o noticiário veio de coturno, pisando fundo no coração e no bolso. Sente-se. Respire. Porque a crônica de hoje tem cheiro de maresia triste, barulho de moedas nervosas e eco diplomático de portas semiabertas.
Na Praia da Aruana, o mar — esse velho contador de histórias — devolveu à areia um elefante-marinho-do-sul cansado de mundo. Veio frágil, como quem pede licença para morrer. O bicho respirava com dificuldade, e cada suspiro parecia um pedido de desculpa à humanidade: “Desculpem-me por existir num planeta que vocês esqueceram de cuidar”. Veterinários lutaram como heróis sem capa, mas a vida, às vezes, fecha o expediente mais cedo. O óbito não foi só do animal; foi também de um pedaço da nossa consciência ambiental, que insiste em tirar férias prolongadas. O mar chorou em ondas miúdas. A areia vestiu luto. E nós seguimos rolando o feed, como quem passa por um velório sem olhar o caixão.
Enquanto isso, no cofre das instituições, as cifras começaram a suar frio. O BRB olhou o espelho e percebeu um rombo — não desses poéticos que cabem em metáforas, mas um buraco financeiro com fome de zeros. Entre empréstimos e aportes, o banco ensaia uma dança cautelosa, pedindo bênção ao Banco Central como quem pede água num deserto regulatório. Dinheiro, esse animal arisco, ora morde, ora foge; e quando some, deixa rastros de planilhas em pânico. O capital se capitaliza, o risco se organiza, e o cidadão observa, com a ironia de quem sabe: quando o barco balança, o colete salva-vidas raramente tem CPF popular.
E no tabuleiro internacional, a diplomacia virou xadrez jogado com peões de aço. Espanha e Alemanha agradeceram, mas disseram “não” ao convite de Trump para o tal “Conselho da Paz”. Paz convocada por convite soa como chuva marcada em calendário: pode até cair, mas ninguém garante. Sessenta países na lista, o Brasil em silêncio — aquele silêncio que não é ouro, é suspense. A geopolítica boceja, coça o queixo e escolhe o momento de falar. Porque, no teatro do mundo, até a paz pede ensaio, figurino e palco certo. E às vezes, recusar é a forma mais educada de dizer: “Não contem comigo para esse ato”.
Assim foi a sexta-feira: um animal marinho que se despede como poema interrompido; um banco que pede colo aos números; e um conselho de paz que nasce com mais agenda do que consenso. O planeta suspira, os mercados piscam, as chancelarias calculam. E nós, aqui de Japaratuba, escrevemos — porque escrever é remar contra a maré da indiferença.
Que a próxima onda traga cuidado.
Que o próximo balanço traga justiça.
Que a próxima diplomacia traga menos palco e mais humanidade.




