CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 20 de maio de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
Vamos que vamos para a crônica de hoje.
Quarta-feira chegou vestida de juiz, usando toga de nuvem carregada e apito de salva-vidas. E o Rio do Prata, que deveria ser um espelho líquido para mergulhos e gargalhadas, apareceu no noticiário parecendo personagem de filme de suspense: água com cara de convite e perigo escondido feito vilão atrás da cortina. A Justiça puxou o freio de mão da coragem turística e gritou: “Banho? Hoje não!”. E o rio, coitado, que nasceu para cantar cantigas de correnteza, amanheceu interditado, de castigo, olhando para os banhistas como quem diz: “Voltem quando eu estiver menos elétrico e mais poético”.
Dizem que havia fios. Fios sobre o leito. Fios onde deveriam existir peixes, reflexos e histórias de pescador aumentadas em 347%. A cena parecia invenção de cronista exagerado: o rio querendo ser rio e alguém tentando transformá-lo em tomada. Ainda bem que o bom senso, esse senhor de cabelos brancos e chinelos gastos, resolveu aparecer antes que a tragédia escrevesse um capítulo que ninguém queria ler.
E enquanto Japaratuba segurava o mergulho, lá longe, nos salões do poder, outro espetáculo acontecia: a floresta entrou na Câmara sem convite e saiu perguntando se esqueceram de apagar a luz da consciência. Ambientalistas chamaram de retrocesso. Outros chamaram de desenvolvimento. O debate virou uma partida de cabo de guerra onde a mata está no meio dizendo: “Pelo amor das minhas raízes, puxem devagar!”.
A fiscalização remota quase ganhou tornozeleira eletrônica e o desmatamento, esse atleta olímpico da motosserra invisível, pareceu ouvir um sussurro: “Calma, primeiro vamos avisar que você está sendo multado”. É como avisar ao bolo que ele será comido e esperar que ele fuja da mesa.
No grande teatro das notícias, o rio pediu socorro e a floresta pediu legenda. Um queria menos fios. A outra queria menos cortes. Ambos repetindo a mesma frase com sotaques diferentes: “Cuidem de nós antes que sobrem apenas fotografias e saudades”.
E assim terminou o dia 20 de maio: com o Rio do Prata usando placa de interditado como quem veste curativo e as árvores olhando para Brasília com aquela cara de quem já viu filme demais e conhece o final.
Porque a natureza, meus amigos, até perdoa… mas não parcela eternamente.




