CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 19 de maio de 2025

Giro de notícias do dia 19 de maio de 2025 entre galinhas aliviadas, passarelas convalescentes, mares ameaçados e diplomacias acrobáticas e um Brasil que tenta presidir a paz alheia.

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 19 de maio de 2025
Publicado em 20/05/2025 às 5:43

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE


E lá vem mais um 19 de maio, desfilando pelas avenidas do tempo como quem carrega uma sacola de supermercado: cheia de produtos vencidos, promoções duvidosas e, às vezes, uma fruta fresca perdida no meio da confusão. O Brasil, esse supermercado continental, teve de tudo hoje: passarela engessada, gripe alada, petróleo onde antes nadava o boto, e — pasme! — diplomacia onde antes reinava o silêncio.

Comecemos pelo respiro aliviado das galinhas de Graccho Cardoso. As penas não foram pra cova, ao menos por enquanto. O Ministério da Agricultura anunciou: “não é gripe aviária, pode soltar o milho!”. Foi como se o céu abrisse e um coral de galos cantasse em uníssono: “Não é hoje, minha gente!”. E assim, o sertão não virou cemitério de aves. Por ora.

Mas enquanto o campo suspirava aliviado, a cidade engasgava com seus próprios passos. Aracaju, a princesa sergipana, será obrigada a fazer alongamento urbano. A Avenida Tancredo Neves terá parte de sua artéria entupida para a cirurgia na passarela do Detran. Ninguém avisou que a cidade também precisava passar no teste do bafômetro da mobilidade urbana? O povo vai ter que dirigir como equilibrista de circo: um olho na faixa, outro na obra, e os dois pés rezando para não cair no engarrafamento abissal.

Já no palco da ONU, o Brasil foi chamado para presidir um grupo de trabalho sobre a criação do Estado da Palestina. Um convite que, para um país onde o “estado” mais comum é o de calamidade pública, soa quase poético. O Itamaraty vestiu sua melhor diplomacia e acenou para a paz no Oriente Médio — uma paz que há décadas é promessa de político em véspera de eleição: sempre adiada, sempre inflamada, nunca cumprida. Que o Brasil consiga, ao menos, costurar um fiapo de esperança entre as bandeiras rasgadas de Gaza e Tel Aviv.

Mas nem tudo é esperança. A mão de ferro da ganância continua cavando o fundo do mar. O Ibama avançou mais uma casa no tabuleiro do petróleo na Foz do Amazonas. Simulações de acidentes serão feitas — porque simular é mais fácil do que prevenir. O que se vê é uma coreografia sombria entre burocracia e ambição, dançando sobre águas que antes eram berço da vida e agora correm risco de se tornarem berço de tragédias. O boto cor-de-rosa já começa a escrever sua carta de despedida, assinada com lágrimas salgadas.

E por falar em tragédia, a França, o Canadá e o Reino Unido — os mocinhos da diplomacia ocidental — ameaçaram Israel com sanções se a carnificina em Gaza não cessar. O problema é que esses mesmos senhores, que agora brandem palavras firmes, muitas vezes abasteceram os tanques com silêncio ou diplomacia seletiva. Gaza sangra, e o mundo, sempre tardio, decide agora levantar a voz — uma voz que chega como chuva fina sobre incêndio.

A vida, em 19 de maio, é uma colcha remendada com linhas tortas. De um lado, aves salvas do abate. Do outro, crianças palestinas soterradas por escombros que nem a diplomacia consegue remover. De um lado, o Brasil convidado para ensinar convivência; de outro, o Brasil flertando com desastres petrolíferos. Tudo isso costurado com o barbante da ironia nacional, onde os extremos convivem como vizinhos de cerca baixa: se cumprimentam com sorriso amarelo, mas vivem se cutucando.

E assim seguimos, nesse país de galinhas aliviadas, passarelas convalescentes, mares ameaçados e diplomacias acrobáticas e um Brasil que tenta presidir a paz alheia.

Mas hoje, ainda que seja só por hoje, as aves cantaram. E quando o galo canta, é porque, quem sabe, a esperança ainda acorda com o pé direito.