CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 19 de janeiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O dia 19 amanheceu como um mercado persa de metáforas: barracas de esperança, tapetes de desespero, manequins de elegância e sirenes de alerta. O mundo abriu a vitrine e gritou: olha pra mim. Eu olhei — com o olho esquerdo crítico e o direito poético — e vi um desfile em que a razão troca de roupa a cada esquina.
Comecemos pela educação, essa senhora teimosa que insiste em florescer mesmo quando o asfalto tenta esmagá-la. A Universidade Federal de Sergipe abriu o cofre dos sonhos: 5.940 vagas, 115 cursos, portas escancaradas via SiSU. É como se a UFS tivesse dito: “entrem, há lugar para todos — inclusive para o futuro”. Sete novos cursos surgem como brotos em terreno árido; seis em Estância, um de Inteligência Artificial em São Cristóvão. A IA, essa criatura meio Prometeu, meio oráculo, aprende a caminhar entre mangues, rios e contradições sergipanas. Que ela venha com ética no bolso e humanidade no coração, porque algoritmo sem afeto vira régua fria medindo gente quente.
Enquanto a educação distribui chaves, o dinheiro — esse bicho arisco — resolve devolver o que tomou emprestado. O Fundo Garantidor de Crédito começa a ressarcir 377 mil credores do Banco Master. À vista. Uma parcela única. O alívio entra na sala como um ventilador num verão de 40 graus. O bolso respira. O travesseiro dorme. Mas fica a reflexão: por que a tranquilidade financeira sempre chega de jaleco, depois da febre? Aprendemos tarde que promessa não rende juros — rende ansiedade.
O noticiário internacional, porém, rasga o figurino e mostra a costura torta do mundo. Na Síria, cerca de 1.500 integrantes do Estado Islâmico escapam de uma prisão em Shaddadi. Grades viram metáforas frágeis; cadeados aprendem a tremer. As Forças Democráticas Sírias e Damasco trocam acusações como quem joga pingue-pongue com granadas verbais. O território muda de dono; a paz muda de endereço; o medo muda de roupa. A geopolítica dança um tango manco, pisando nos próprios pés, enquanto civis seguram a respiração.
Na medicina — esse templo que deveria cheirar a ciência e cuidado — o termômetro acusa febre ética: cerca de 30% dos cursos serão punidos após avaliação ruim no Enamed. É o estetoscópio encostado no sistema educacional dizendo “há ruído”. Formar médicos não é linha de produção; é pacto social. Diploma sem qualidade é receita sem posologia: pode matar.
Do outro lado do planeta, a televisão iraniana é hackeada e exibe recados aos manifestantes. A tela, essa janela domesticada, resolve falar com voz própria. Pixel vira protesto; sinal vira sussurro coletivo. Quando a tecnologia troca de lado, o poder engole seco.
E então, como num silêncio elegante que pede respeito, cai o pano da alta-costura: morre Valentino Garavani, aos 93. O “último imperador” dobra a última barra do tempo. Seu vermelho não era cor — era estado de espírito. Tapetes vermelhos ficaram órfãos; noivas suspiram; o glamour faz luto de luvas brancas. Harper’s Bazaar e W Magazine lembram: ele moldou a elegância italiana como quem ensina o tecido a sonhar. Aprendeu na França, consagrou em Roma, encantou o mundo. Se a moda é linguagem, Valentino foi poesia.
Assim, o dia 19 de janeiro de 2026 se despede com um aceno irônico: abre vagas e fecha ciclos; devolve dinheiro e espalha medo; pune descuidos e celebra legados. O mundo segue — tropeçando, desfilando, corrigindo a barra. E nós, espectadores-autores, precisamos escolher: aplaudir de pé ou ajustar o roteiro. Porque, no fim, a história não é só notícia — é responsabilidade costurada à mão, ponto por ponto, no tecido do amanhã.




