CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 19 de dezembro de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 19 de dezembro de 2025
Publicado em 20/12/2025 às 18:14

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

O dia 19 de dezembro amanheceu com gosto de café requentado e manchetes fervendo. A realidade, sempre pontual, bateu à porta sem pedir licença — e entrou de sapatos sujos de contradição.

No Rio de Janeiro, um rapaz de 26 anos resolveu que o mouse era mais perigoso que um revólver. Com cliques afiados e dedos treinados no teclado da esperteza, arrancou R$ 49 mil de um morador de Aracaju. O dinheiro atravessou estados como quem atravessa um rio raso: sem resistência. O estelionato eletrônico virou poesia moderna — sem rima, sem ética e com final trágico. A polícia chegou, fechou o parêntese, mas a pergunta ficou solta no ar: quantas vítimas ainda estão sendo digitadas neste exato segundo?

Enquanto isso, o transporte metropolitano seguia sua velha dança coreografada: ônibus cheios de gente vazia de paciência. A Justiça anulou a licitação, o consórcio “discute”, e o povo… espera. Espera no ponto, espera no calor, espera no atraso. O transporte público no Brasil é um romance inacabado, sempre prometendo um próximo capítulo que nunca chega.

No palco principal da República, a política resolveu vestir jaleco. Bolsonaro, personagem recorrente desse folhetim institucional, ganhou autorização para cirurgia — a hérnia pede socorro, mas sem pressa, dizem os laudos. Não é emergência, mas também não é metáfora: o corpo cobra a conta dos excessos. Prisão domiciliar? Negada. Entrevista? Autorizada. Carta? Liberada. A cela virou sala de visitas da democracia, onde até a fisioterapia entra como ato político. O Estado, cansado, tenta equilibrar o bisturi com a Constituição.

Já no mundo das apostas, bets e programas sociais travaram um cabo de guerra moral. O bloqueio caiu para quem já estava cadastrado; os novos ficam do lado de fora, olhando pela vitrine. O dinheiro público, esse órfão crônico, segue sendo disputado por quem sabe transformar miséria em lucro e esperança em estatística. O STF decidiu, as empresas respiraram, e a ética… ficou em observação.

Falando em estatísticas, a pesquisa da Quaest foi um espelho honesto: 72% querem o fim da escala 6×1, porque ninguém aguenta trabalhar seis dias e descansar um suspiro. 81% defendem ônibus gratuito, talvez porque pagar para sofrer já virou abuso. 55% querem mais impostos para bancos, bilionários e bets, como quem diz: “quem lucra mais, que sua mais”. O povo falou — agora resta saber se alguém escuta.

No Congresso, o Orçamento de 2026 foi aprovado com R$ 61 bilhões em emendas parlamentares. O texto promete superávit, mas corta o Pé de Meia e o Auxílio Gás. É a velha matemática brasileira: sobra para quem manda, falta para quem precisa. O dinheiro público faz ginástica olímpica para cair sempre no mesmo colo.

No STF, Fachin prometeu diálogo, código de conduta e prestação de contas. Palavras bonitas, alinhadas, educadas — como móveis novos em casa antiga. Disse que o Supremo não se dobra a ameaças. O problema é que o povo, do lado de fora, já anda meio dobrado pelo peso da vida.

E quando parecia que o noticiário ia desacelerar, a violência atravessou o oceano. Em Taiwan, um homem armado com faca transformou a rua em pesadelo: três mortos, nove feridos, e um fim cinematográfico — queda do sexto andar. O mundo, cada vez menor, sangra em qualquer idioma.

Assim terminou o dia 19 de dezembro: com crimes digitais, ônibus atrasados, bisturis políticos, apostas morais, orçamentos generosos e ruas perigosas. A realidade não pediu aplausos, pediu reflexão. E a gente, cansado mas atento, segue lendo o mundo como quem lê um poema duro — daqueles que doem, mas precisam ser lidos até o fim.