CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 19 de dezembro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O dia 19 de dezembro amanheceu com gosto de café requentado e manchetes fervendo. A realidade, sempre pontual, bateu à porta sem pedir licença — e entrou de sapatos sujos de contradição.
No Rio de Janeiro, um rapaz de 26 anos resolveu que o mouse era mais perigoso que um revólver. Com cliques afiados e dedos treinados no teclado da esperteza, arrancou R$ 49 mil de um morador de Aracaju. O dinheiro atravessou estados como quem atravessa um rio raso: sem resistência. O estelionato eletrônico virou poesia moderna — sem rima, sem ética e com final trágico. A polícia chegou, fechou o parêntese, mas a pergunta ficou solta no ar: quantas vítimas ainda estão sendo digitadas neste exato segundo?
Enquanto isso, o transporte metropolitano seguia sua velha dança coreografada: ônibus cheios de gente vazia de paciência. A Justiça anulou a licitação, o consórcio “discute”, e o povo… espera. Espera no ponto, espera no calor, espera no atraso. O transporte público no Brasil é um romance inacabado, sempre prometendo um próximo capítulo que nunca chega.
No palco principal da República, a política resolveu vestir jaleco. Bolsonaro, personagem recorrente desse folhetim institucional, ganhou autorização para cirurgia — a hérnia pede socorro, mas sem pressa, dizem os laudos. Não é emergência, mas também não é metáfora: o corpo cobra a conta dos excessos. Prisão domiciliar? Negada. Entrevista? Autorizada. Carta? Liberada. A cela virou sala de visitas da democracia, onde até a fisioterapia entra como ato político. O Estado, cansado, tenta equilibrar o bisturi com a Constituição.
Já no mundo das apostas, bets e programas sociais travaram um cabo de guerra moral. O bloqueio caiu para quem já estava cadastrado; os novos ficam do lado de fora, olhando pela vitrine. O dinheiro público, esse órfão crônico, segue sendo disputado por quem sabe transformar miséria em lucro e esperança em estatística. O STF decidiu, as empresas respiraram, e a ética… ficou em observação.
Falando em estatísticas, a pesquisa da Quaest foi um espelho honesto: 72% querem o fim da escala 6×1, porque ninguém aguenta trabalhar seis dias e descansar um suspiro. 81% defendem ônibus gratuito, talvez porque pagar para sofrer já virou abuso. 55% querem mais impostos para bancos, bilionários e bets, como quem diz: “quem lucra mais, que sua mais”. O povo falou — agora resta saber se alguém escuta.
No Congresso, o Orçamento de 2026 foi aprovado com R$ 61 bilhões em emendas parlamentares. O texto promete superávit, mas corta o Pé de Meia e o Auxílio Gás. É a velha matemática brasileira: sobra para quem manda, falta para quem precisa. O dinheiro público faz ginástica olímpica para cair sempre no mesmo colo.
No STF, Fachin prometeu diálogo, código de conduta e prestação de contas. Palavras bonitas, alinhadas, educadas — como móveis novos em casa antiga. Disse que o Supremo não se dobra a ameaças. O problema é que o povo, do lado de fora, já anda meio dobrado pelo peso da vida.
E quando parecia que o noticiário ia desacelerar, a violência atravessou o oceano. Em Taiwan, um homem armado com faca transformou a rua em pesadelo: três mortos, nove feridos, e um fim cinematográfico — queda do sexto andar. O mundo, cada vez menor, sangra em qualquer idioma.
Assim terminou o dia 19 de dezembro: com crimes digitais, ônibus atrasados, bisturis políticos, apostas morais, orçamentos generosos e ruas perigosas. A realidade não pediu aplausos, pediu reflexão. E a gente, cansado mas atento, segue lendo o mundo como quem lê um poema duro — daqueles que doem, mas precisam ser lidos até o fim.




