CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 18 de janeiro de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 18 de janeiro de 2026
Publicado em 19/01/2026 às 1:26

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

O dia 18 amanheceu com o céu usando gravata preta. A manhã chegou de mansinho, pisando em ovos, como quem sabe que notícia triste não gosta de porta batendo. Começamos com silêncio — esse barulho grave que a morte faz quando passa. Partiu o investigador Damião Nascimento Rodrigues, homem de trincheira ética, daqueles que não usavam distintivo apenas no peito, mas também na consciência. Damião foi ponte: ligou gerações, ensinou que polícia não é só sirene, é postura; não é só arma, é humanidade. Seu sepultamento, em Pirambu, foi um encontro de lágrimas disciplinadas, dessas que marcham em fila indiana, respeitando o luto. À família, aos irmãos, ao sobrinho, fica o abraço que não cabe no jornal e o respeito que não cabe no tempo. Quando um homem assim se vai, a cidade perde um verbo: servir.

Mas o dia, esse dramaturgo cruel, não se contenta com um ato só. Logo depois, entra em cena a câmera de segurança — o olho eletrônico que tudo vê, menos a vergonha. No Conjunto Santa Tereza, dois vultos de pressa armada descem de uma moto e assaltam um minimercado. O tempo, ali, virou bala: rápido, frio, covarde. O dono, Hugo, mal teve tempo de pensar; o medo chegou primeiro, anunciou-se sem pedir licença. É curioso: a câmera grava, o vídeo viraliza, a indignação circula, mas a paz… essa continua em falta, como produto de prateleira vazia.

Enquanto isso, Japaratuba resolveu desafiar a gravidade do noticiário com festa. Foi o último dia das cabacinhas e de Santo Reis — a cidade vestiu o riso, afinou o tambor e fez da rua um verso coletivo. Teve guerra de cabacinhas, teve arrastão, teve tradição correndo solta como criança descalça. A alegria ali não era distração; era resistência. Em tempos de manchetes duras, a cultura fez carinho no dia, provando que memória também é antídoto.

No plano nacional, outra despedida: Raul Jungmann, aos 73, fechou o ciclo da própria história. Político de muitas cadeiras e muitos embates, atravessou ministérios, enfrentou crises, lutou contra um câncer implacável. A política, essa senhora de rugas profundas, perdeu mais um de seus capítulos. Concorde-se ou não com o personagem, a morte sempre pede pausa — e respeito.

Lá fora, o mundo resolveu brincar de xadrez com o futuro. Portugal, pela primeira vez em 40 anos, terá segundo turno presidencial. A democracia, cansada, pediu água, mas seguiu em frente. Esquerda e extrema direita sentaram-se à mesa como pratos que não combinam, mas dividem o mesmo almoço. Fevereiro promete ser aquele mês de suor cívico, onde o voto pesa mais que a dúvida.

E porque a vida insiste em metáfora até no futebol, o Senegal escreveu uma final africana digna de roteiro exagerado. Teve prorrogação, teve polêmica, teve pênalti de cavadinha que virou poesia mal-acabada, dessas que rimam com arrependimento. Marrocos perdeu o gol do meio século; o estádio silenciou como quem prende o choro. Senegal, por sua vez, ergueu o segundo título e mostrou que a bola também sabe contar histórias — algumas felizes, outras com travessão de tristeza.

Assim foi o dia 18: um mosaico de luto e festa, de crime e cultura, de política e bola, de despedidas e resistências. O noticiário, esse espelho quebrado, devolveu imagens fragmentadas de um país — e de um mundo — que ainda aprende a andar entre a dor e a esperança. E nós, leitores e leitoras, seguimos equilibrando o coração na corda bamba do cotidiano, porque viver, no fim das contas, é isso: atravessar o dia com dignidade, mesmo quando a manchete tenta nos empurrar para o abismo.