CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 18 de Fevereiro de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 18 de Fevereiro de 2026
Publicado em 18/02/2026 às 20:40

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

No início da quaresma, o mundo resolveu fazer jejum… mas não foi de pecado, foi de juízo.

Enquanto os sinos invisíveis da reflexão dobravam no coração da quarta-feira de cinzas, o povo corria para o Mercado Central de Aracaju como se cada peixe fosse um pedaço de salvação empanado na fé. Cresceu a procura por pescados — e eu fiquei imaginando São Pedro olhando lá de cima e dizendo: “Rapaz, agora lembram de mim!”

A tilápia virou penitência, o camarão virou promessa, e o bacalhau — esse aristocrata da mesa — desfilava nas bancas como celebridade de tapete vermelho. O cheiro de mar misturado com suor, conversa alta e moeda tilintando era uma sinfonia popular, dessas que não entram no Spotify, mas entram na alma.

E enquanto o povo comprava peixe para purificar o corpo, o noticiário fritava números em óleo fervente: o FGC já pagou 84% dos credores do Banco Master. R$ 37,2 bilhões escorrendo como rio caudaloso de dígitos.

O Fundo Garantidor de Créditos, esse bombeiro financeiro de gravata e planilha, tentava apagar incêndios invisíveis. Mas aí vem a conta final: liquidações do Banco Master, Will Bank e Pleno devem deixar um rombo de R$ 51,8 bilhões.

Rombo. Que palavra feia. Rombo é buraco na parede, é dente quebrado, é céu rasgado antes da tempestade. Rombo é quando a matemática perde a fé.

E o Banco Pleno, coitado, entrou na dança da liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central como convidado que chega atrasado e ainda derruba a mesa. Mais R$ 4,9 bilhões na conta. A conta que nunca fecha. A conta que fecha em nós.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, a vida provava que o Brasil é o único país capaz de chorar sorrindo e sambar chorando.

A Unidos do Viradouro ergueu seu quarto título no Carnaval 2026 com o enredo “Pra cima, Ciça!”. Exaltou em vida o Mestre Ciça — e que coisa rara, meus amigos, homenagear alguém antes que a saudade vire estátua.

A escola gabaritou os nove quesitos. 270 pontos. Nota máxima na emoção. Ritmistas atravessaram a avenida às lágrimas. E ali, entre tamborins e corações acelerados, o Brasil lembrava que ainda sabe bater — mesmo quando apanha.

Porque o tambor da Viradouro não era só percussão. Era desfibrilador de esperança.

Mas nem só de samba vive o noticiário. No Paraguai, um apagão em plena onda de calor deixou o país no escuro. Falha em duas linhas de energia da Itaipu. E eu pensei: até a luz anda cansada. Até a eletricidade resolveu fazer penitência.

Imaginem o calor abraçando o povo como casaco de lã em forno ligado. Sem ventilador. Sem ar-condicionado. Só o suor descendo como rio rebelde pela espinha. O escuro tem cheiro — cheiro de incerteza.

A energia voltou em Assunção, mas o susto ficou. Porque quando falta luz, a gente descobre que a modernidade é só uma lâmpada frágil pendurada no teto do mundo.

E lá do outro lado do planeta, Vladimir Putin comentava a crise em Cuba e chamava de “inaceitáveis” as restrições impostas pelos EUA. A geopolítica é um xadrez jogado com peças humanas. Reis discursam, peões sofrem.

Cuba, ilha cercada de mar e embargo, tenta respirar entre bloqueios e discursos. E o mundo assiste, dividido entre ideologias e interesses, enquanto o povo só quer pão, luz e dignidade.

No fim das contas, 18 de fevereiro de 2026 foi assim:

Peixe na mesa.
Rombo nos cofres.
Tambor na avenida.
Escuro no Paraguai.
Discurso na Rússia.

E nós aqui, no meio desse carrossel de notícias, tentando entender se estamos no desfile ou na apuração.

A quaresma começa convidando à reflexão. Mas o mundo parece preferir a distração. Entre o cheiro de camarão e o som da bateria campeã, entre bilhões evaporando e apagões suando, fica uma pergunta que arde mais que pimenta malagueta na consciência:

Estamos aprendendo… ou só estamos assistindo?

O dia 18 não foi apenas quarta-feira. Foi espelho. E espelho não mente — apenas devolve o que somos.

Que a quaresma nos ensine a jejuar da indiferença. Porque de peixe o mercado está cheio.
Mas de consciência… ainda falta estoque.