CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 17 de janeiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O dia 17 amanheceu com zumbido. Não foi despertador, não foi pensamento atrasado: foi a realidade batendo asas, dessas que não pedem licença. Em Aracaju, no Bairro Coroa do Meio, a manhã virou colmeia desgovernada. Abelhas — operárias do caos momentâneo — decidiram protestar sem cartaz, sem sindicato, sem pauta escrita. Atacaram como quem cobra juros do atraso humano. O vídeo circulou: gente correndo, braços em coreografia improvisada, o ar cortado por gritos e ferroadas. A cidade, acostumada a buzinas e maresia, provou o gosto metálico do susto. As abelhas, pequenas professoras aladas, deram aula prática: quando a natureza se cansa, ela não manda ofício — ela ferroa.
Enquanto isso, o mundo grande — esse palco de terno engomado e microfone nervoso — resolveu brincar de diplomacia com sotaque de épico. Donald Trump convidou Lula para um “Conselho de Paz” voltado à reconstrução e à governança temporária da Faixa de Gaza. O convite veio com perfume de solenidade e gosto agridoce de ironia histórica. Paz, essa senhora de passos lentos, foi chamada para dançar num salão cheio de estilhaços. É bonito no papel — papel aceita tudo, até promessa em letra cursiva. O difícil é fazer a palavra “reconstrução” aprender a caminhar sem tropeçar em escombros, sem sangrar nos cantos.
No mesmo dia, o planeta resolveu assinar papéis como quem assina um pacto com o futuro. Mercosul e União Europeia apertaram as mãos em Assunção e disseram “livre comércio” com voz de cerimônia. Os flashes sorriram, as canetas posaram para a foto, e o acordo seguiu para a fila da realidade — essa repartição pública onde tudo precisa de carimbo, Parlamento Europeu, Congresso brasileiro, paciência. O livre comércio prometeu abrir portas; resta saber se as chaves não ficarão com os mesmos de sempre, enquanto a maioria bate palmas do lado de fora, ouvindo o eco.
Entre a ferroada e o aperto de mão, o dia ensinou sua lição de contraste. Abelhas lembraram que a cidade não é dona do céu. Presidentes lembraram que a paz não se decreta — se constrói com cal e ética. Blocos econômicos lembraram que o mundo negocia até o fôlego, mas cobra juros da pressa. E nós, espectadores com os sentidos à flor da pele, seguimos aprendendo a ler os sinais: quando a colmeia se agita, quando o palanque promete, quando o contrato sorri.
O 17 de janeiro fechou o expediente com esse recado escrito em pólen e tinta: ou ouvimos o zumbido do tempo, ou ele nos ensina à força. Porque a história, como as abelhas, pode ser pequena no corpo — mas é grande no impacto.




