Crônica
Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 12 de outubro de 2025 — Dia de Nossa Senhora Aparecida e das Crianças
Entre a Fé e o Consumo: O Milagre de Ainda Acreditar
Por Antônio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O domingo amanheceu vestido de azul celeste — a cor do manto da Mãe Aparecida e dos sonhos infantis.
O céu parecia ter sido varrido por anjos com espanadores de nuvens, e cada raio de sol piscava como se dissesse:
“Hoje é dia de fé e de infância, misture as duas coisas e terá milagre.”
Nas ruas de Aracaju, os fiéis caminhavam em peregrinação, transformando o asfalto quente em tapete de promessas.
O bairro Siqueira Campos virou procissão, e cada vela acesa era uma lágrima que aprendeu a brilhar.
Nossa Senhora Aparecida, ali do alto, devia sorrir em silêncio, vendo o povo simples carregando o peso da esperança nos ombros e o perfume das orações no bolso.
Até o vento parecia rezar, passando devagar para não apagar as velas.
Mas bastou dobrar a esquina do sagrado para cair no profano: no Centro, uma promoção do Dia das Crianças virou guerra santa pelo último brinquedo.
Carrinhos, bonecas e nervos quebrados — tudo misturado em uma coreografia caótica.
A loja parecia uma Babel de gritos e empurrões.
Ironia cruel: enquanto alguns pediam milagres à Mãe do Céu, outros buscavam a salvação no desconto de 50%.
O consumo, essa nova religião sem terço nem altar, ganhou mais devotos do que qualquer procissão.
O policial que tentava conter o tumulto parecia um anjo caído em missão impossível: restaurar a paz entre carrinhos e cotovelos.
A multidão, possuída pelo espírito do marketing, derrubou portas, vitrines e talvez a paciência divina.
No fim, ninguém saiu ferido — apenas o bom senso, que foi internado em estado grave.
Enquanto isso, lá em Brasília, os governistas começavam a vestir ternos e intenções, tentando “salvar vetos” do licenciamento ambiental —
esse nome bonito para o ato feio de flexibilizar o cuidado com o planeta.
Será a Semana da Pré-COP, mas o clima ali era de pré-caos.
No palco verde do Congresso, cada deputado parecia um ator de tragédia ecológica:
uns juram amor à natureza, outros à soja e ao gado.
E o Brasil, coitado, continua sendo o quintal onde a Amazônia vira pasto e o discurso ambiental é regado a agrotóxico retórico.
Lá fora, a Europa decretava o fim do carimbo no passaporte.
O símbolo do “cheguei” será trocado por câmeras, impressões digitais e um sorriso digitalizado.
O mundo parece estar virando uma imensa fila de reconhecimento facial, onde o homem é código e o coração é dado biométrico.
Adeus, selo da aventura. Bem-vindo, QR code da globalização.
Mas voltemos ao Brasil, onde o coração ainda bate de fé e de infância.
No Santuário de Aparecida, milhares de vozes se misturavam em um coro de esperança.
As filas se formavam como rios que desaguam no altar.
Ali, a tecnologia é a fé; o dado biométrico é o toque do rosário.
As crianças corriam com balões coloridos, talvez os últimos seres puros capazes de acreditar que o mundo ainda pode ser bom.
E no Egito, Trump e o presidente egípcio falavam em paz para Gaza.
Ironia universal: homens que jogam bombas agora desejam distribuir pombas.
O mundo é um teatro onde os generais ensaiam gestos de santos,
e os santos tentam ensinar generais a rezar.
Talvez o verdadeiro milagre brasileiro seja esse —
ainda sorrirmos entre os escombros, ainda acreditarmos entre os impostos, ainda rezarmos entre as promoções.
Porque a fé, como criança, não entende de política nem de lógica.
Ela apenas brinca com o impossível, esperando que o mundo aprenda, um dia,
a não quebrar o brinquedo chamado esperança.
Que Nossa Senhora Aparecida proteja o Brasil,
e que as crianças — as de colo, as de fé e as de alma —
nunca deixem de acreditar que é possível reconstruir o paraíso
com giz, oração e ternura.




