CRÔNICA
Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 12 de janeiro de 2025
Um domingo de festa e dor
As manchetes do dia 12 de janeiro de 2025 alegria e lágrimas
Por Antônio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
No palco efêmero de um domingo em Sergipe, dançaram juntas a festa e a tragédia, como se fossem personagens de um drama barroco, onde alegria e lágrimas se revezam em cena. Na festa das cabacinhas em Japaratuba, as ruas ecoavam risos, tambores e o som de passos que desafiavam o dia . Era o último suspiro da festa local antes de um longo intervalo até o próximo ato. Mas, enquanto as cabacinhas despediam-se com melancolia carnavalesca, as chuvas faziam um arrastão muito mais avassalador.
No enredo das águas, Sergipe não foi protagonista; foi vítima. As lágrimas do céu desceram com tamanha intensidade que transformaram ruas em rios e sonhos em destroços. A Rodovia SE-438 em Capela cedeu, como quem não aguenta mais o peso de tanto descaso. Três vidas foram ceifadas, arrastadas pela enxurrada que não perdoa, uma metáfora cruel da indiferença com que se trata a infraestrutura.
Enquanto isso, nos corredores da política, os bilhões de um fundo para segurança pública dormem em berço esplêndido, embalados pela canção da burocracia. É como se o cofre estivesse trancado com uma chave jogada em um oceano de indiferença. As ruas clamam por equipamentos, os policiais por treinamento, mas os papéis acumulam poeira, e os projetos ficam pendurados no limbo do “ainda não deu tempo”.
Na outra ponta do mundo, um fogo implacável consome Los Angeles, devorando casas, memórias e vidas. É como se a terra tivesse decidido devolver ao céu toda a raiva contida na sua seca prolongada. Sete mil estruturas caíram, mas as chamas não se saciaram. Enquanto isso, o café da manhã do brasileiro arde em outro fogo: o da inflação. O café subiu, a carne virou artigo de luxo e o leite, outrora símbolo de nutrição, tornou-se privilégio. A cebola e o tomate, em um ato de generosidade climática, tentaram equilibrar o jogo, mas a balança ainda pesa para o lado da escassez.
E no meio de tantas tragédias, veio o adeus solitário de Marcello Lavenère, o homem que assinou o pedido de impeachment de Collor. Aos 86 anos, deixou este palco terreno, levando consigo um legado de luta por democracia e justiça social. O tempo, este senhor impiedoso, ceifa os grandes como quem apaga velas em um altar.
O domingo foi de contrastes tão fortes que poderiam ser enquadrados como uma pintura expressionista. De um lado, o brilho fugaz das cabacinhas; do outro, a escuridão das águas e das cinzas. Sergipe chora seus mortos, lamenta suas estradas que caem, e ao mesmo tempo dança ao som de uma festa que resiste, como um grito de vida em meio ao caos. É a eterna dualidade do humano: festejar a vida enquanto se enterra os seus.
E assim, sob o céu carregado de metáforas e nuvens, encerra-se mais um capítulo deste enredo brasileiro, onde até as cabacinhas sabem que só resta esperar até o próximo ato.




