CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 11 de janeiro de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 11 de janeiro de 2026
Publicado em 13/01/2026 às 14:29

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

O domingo acordou com cheiro de incenso e suor de alegria. Japaratuba vestiu sua melhor roupa — aquela feita de tambor, fita colorida e fé antiga — e saiu para a rua como quem abre o peito para o mundo. A cidade, celeiro da cultura sergipana, pulsou feito coração em dia de corrida: missa, procissão de Santo Reis e São Benedito, cortejo de grupos folclóricos, coroação do rei e da rainha do Cacumbi. Era a tradição caminhando de mãos dadas com o presente, sussurrando ao futuro: “aqui, a alma não se aposenta”. A cultura não pediu licença; simplesmente entrou, sentou na sala e serviu café com memória.

Enquanto os sinos afinavam o céu de Japaratuba, Aracaju ouviu outro som — o estalo seco do susto. No Rio Poxim, duas embarcações pegaram fogo, como se o rio, cansado de engolir descuidos humanos, resolvesse cuspir labaredas. A água tentou apagar o incêndio com lágrimas salgadas, mas o fogo, esse ator exagerado, fez cena. A Marinha promete investigar causas e responsabilidades; o rio, por sua vez, já investigou tudo faz tempo e concluiu, em silêncio: quando o homem brinca de fósforo, a natureza vira bombeira sem salário.

No cinema do mundo, as cortinas se abriram para o brasileiro Wagner Moura ganhar o palco com elegância e nervo. O prêmio no Globo de Ouro de melhor ator em filme de drama foi como um aplauso que atravessou oceanos e pousou no peito de quem ainda acredita que arte não é luxo, é ferramenta. O filme O Agente Secreto também levou melhor obra em língua não inglesa, perdendo a estatueta maior por um detalhe de roteiro do destino — porque o destino, às vezes, é um crítico severo. Ainda assim, a mensagem ficou clara: filmar é resistir; criar é insistir; contar histórias é salvar gente do esquecimento. O cinema falou grosso e falou bonito, lembrando que câmeras também são bússolas.

Mas o noticiário, esse cronista sem pudor, resolveu mudar de tom e nos levou ao frio do Ártico. Lá, a Groenlândia virou xadrez geopolítico: europeus discutem tropas, a Dinamarca fecha a cara, os Estados Unidos ensaiam passos largos, e o planeta observa como quem vê um adulto disputando brinquedo em recreio global. O discurso vem embalado em segurança estratégica, mas o embrulho cheira a minério, rota marítima e cifrões de gelo. A ilha, silenciosa, assiste à conversa como quem diz: “sou terra, não troféu”. O frio, irônico, parece rir — porque quando os poderosos aquecem ambições, o mundo inteiro pega febre.

Entre o cortejo folclórico de Japaratuba e o estalo do Poxim, entre o aplauso dourado do cinema e o gelo diplomático do Norte, o domingo ensinou uma lição simples e complexa: a humanidade dança no mesmo salão, mas insiste em pisar no pé do parceiro. A cultura salva, a arte denuncia, a natureza reage, a política provoca. E nós? Nós seguimos cronicando — com humor para não enlouquecer, ironia para não engolir seco, poesia para respirar melhor.

Japaratuba pulsa cultura. O rio pede cuidado. O cinema pede coragem. O planeta pede juízo. E o domingo, cansado de ser apenas descanso, virou professor. Quem quiser aprender, que chegue mais perto. Quem não quiser, que pelo menos não jogue fósforo no rio nem gelo no futuro.