CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 11 de abril de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 11 de abril de 2025
Publicado em 12/04/2025 às 7:12

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE


Na manhã de 11 de abril, o planeta acordou com a alma em suspense e o coração dividido entre a arte que se perde, a vacina que se oferece, os intestinos que gritam e o mundo que gira feito pião desgovernado em cima do tabuleiro da geopolítica. Era sexta-feira, mas parecia um poema de Drummond atravessando a Faixa de Gaza: entre a esperança e o desabamento.

O artista sergipano Gilvan Donato, pincelador de sonhos e escultor de silêncios, sumiu em São Paulo como se tivesse escorregado entre os dedos do destino. Um homem que desenhava o mundo com a leveza de um beija-flor agora virou interrogação pendurada no céu da cidade grande. A arte, que já andava com olheiras e soluços, agora anda de mãos dadas com o mistério. E nós, sergipanos, sentimos na pele o retrato rasgado da ausência.

Enquanto isso, em Aracaju, o HPV virou alvo da seringa. A juventude, entre selfies e reels, será cutucada por agulhas de proteção. Uma campanha que vem com ares de esperança, mas que ainda precisa vencer a muralha da desinformação e o exército invisível dos que acham que vacina é conspiração da NASA com o SUS para controlar o wi-fi do cérebro. Ah, se fosse! Teríamos um país mais conectado com a ciência e menos com os achismos de WhatsApp.

E falando em redes, a Câmara dos Deputados virou um verdadeiro almoxarifado de urgências. São mais de mil pedidos de “pra ontem” que mofam nas prateleiras do plenário. O projeto da Anistia, então, virou um buquê de espinhos sendo passado de mão em mão, enquanto o Planalto assovia e olha pro lado, fingindo que é só vento. Quem espera por justiça, que se sente – e leve um lanchinho, porque a fila é longa e o garçom da democracia anda de greve.

No sertão do RN, o ex-presidente Jair Bolsonaro sentiu dores intestinais em plena peregrinação política. Foi resgatado por helicóptero como se fosse personagem de série médica americana, mas com roteiro de novela mexicana: barriga inchada, cena no hospital e selfie com semblante abatido. Disse que não será preciso cirurgia — apenas repouso e talvez um novo discurso que cure também os hematomas da verdade. O intestino, esse rebelde, parece não suportar mais tanta digestão de fake news. A barriga, quem diria, fez mais oposição que muita CPI.

Do outro lado do planeta, entre rituais tecnológicos e cafés no chão, trabalhadores da Coreia do Sul foram engolidos pela terra enquanto construíam os túneis do progresso. Escombros soterraram vidas, e o concreto calou os gritos. Um deles foi resgatado após 13 horas de luta, provando que até debaixo dos entulhos há quem sonhe com a superfície.

E no grande tabuleiro global, a guerra agora é de tarifas — e não de tanques. A China abre os braços, defendendo um multilateralismo com sotaque mandarim, enquanto os Estados Unidos erguem muros invisíveis com tijolos de medo e tinta de protecionismo. A Europa? Essa está ali, entre um bocejo e uma hesitação, tentando se lembrar de quando foi protagonista.


O mundo de 11 de abril foi um mosaico de metáforas: o sumiço de um artista nos lembra que a cultura, quando não é cuidada, desaparece. A vacina é metáfora da prevenção, mas também da escolha entre ignorância e proteção. A dor de barriga do ex-presidente talvez seja sintoma não apenas das cirurgias passadas, mas da má digestão de seus próprios atos. E a guerra de tarifas é apenas o novo nome da velha disputa de egos em escala global.

Por fim, entre os túneis da Coreia, as galerias da arte sergipana, os corredores da Câmara e os corredores do hospital, seguimos sendo esse país que ora se vacina, ora se acovarda, ora se emociona, ora se cala.

E que, apesar de tudo, insiste em acordar mais um dia.