CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 11 de abril de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
Na manhã de 11 de abril, o planeta acordou com a alma em suspense e o coração dividido entre a arte que se perde, a vacina que se oferece, os intestinos que gritam e o mundo que gira feito pião desgovernado em cima do tabuleiro da geopolítica. Era sexta-feira, mas parecia um poema de Drummond atravessando a Faixa de Gaza: entre a esperança e o desabamento.
O artista sergipano Gilvan Donato, pincelador de sonhos e escultor de silêncios, sumiu em São Paulo como se tivesse escorregado entre os dedos do destino. Um homem que desenhava o mundo com a leveza de um beija-flor agora virou interrogação pendurada no céu da cidade grande. A arte, que já andava com olheiras e soluços, agora anda de mãos dadas com o mistério. E nós, sergipanos, sentimos na pele o retrato rasgado da ausência.
Enquanto isso, em Aracaju, o HPV virou alvo da seringa. A juventude, entre selfies e reels, será cutucada por agulhas de proteção. Uma campanha que vem com ares de esperança, mas que ainda precisa vencer a muralha da desinformação e o exército invisível dos que acham que vacina é conspiração da NASA com o SUS para controlar o wi-fi do cérebro. Ah, se fosse! Teríamos um país mais conectado com a ciência e menos com os achismos de WhatsApp.
E falando em redes, a Câmara dos Deputados virou um verdadeiro almoxarifado de urgências. São mais de mil pedidos de “pra ontem” que mofam nas prateleiras do plenário. O projeto da Anistia, então, virou um buquê de espinhos sendo passado de mão em mão, enquanto o Planalto assovia e olha pro lado, fingindo que é só vento. Quem espera por justiça, que se sente – e leve um lanchinho, porque a fila é longa e o garçom da democracia anda de greve.
No sertão do RN, o ex-presidente Jair Bolsonaro sentiu dores intestinais em plena peregrinação política. Foi resgatado por helicóptero como se fosse personagem de série médica americana, mas com roteiro de novela mexicana: barriga inchada, cena no hospital e selfie com semblante abatido. Disse que não será preciso cirurgia — apenas repouso e talvez um novo discurso que cure também os hematomas da verdade. O intestino, esse rebelde, parece não suportar mais tanta digestão de fake news. A barriga, quem diria, fez mais oposição que muita CPI.
Do outro lado do planeta, entre rituais tecnológicos e cafés no chão, trabalhadores da Coreia do Sul foram engolidos pela terra enquanto construíam os túneis do progresso. Escombros soterraram vidas, e o concreto calou os gritos. Um deles foi resgatado após 13 horas de luta, provando que até debaixo dos entulhos há quem sonhe com a superfície.
E no grande tabuleiro global, a guerra agora é de tarifas — e não de tanques. A China abre os braços, defendendo um multilateralismo com sotaque mandarim, enquanto os Estados Unidos erguem muros invisíveis com tijolos de medo e tinta de protecionismo. A Europa? Essa está ali, entre um bocejo e uma hesitação, tentando se lembrar de quando foi protagonista.
O mundo de 11 de abril foi um mosaico de metáforas: o sumiço de um artista nos lembra que a cultura, quando não é cuidada, desaparece. A vacina é metáfora da prevenção, mas também da escolha entre ignorância e proteção. A dor de barriga do ex-presidente talvez seja sintoma não apenas das cirurgias passadas, mas da má digestão de seus próprios atos. E a guerra de tarifas é apenas o novo nome da velha disputa de egos em escala global.
Por fim, entre os túneis da Coreia, as galerias da arte sergipana, os corredores da Câmara e os corredores do hospital, seguimos sendo esse país que ora se vacina, ora se acovarda, ora se emociona, ora se cala.
E que, apesar de tudo, insiste em acordar mais um dia.




