CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 06 de Janeiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
Se o mundo fosse um tabuleiro de xadrez pintado de óleo derramado na pista, a manhã de 6 de janeiro teria sido a jogada mais brilhante do caos: uma avenida em Aracaju transformou-se num espelho escorregadio, um tapete negro que convida o destino a dançar tango com os pneus dos motociclistas, escorregando como se a cidade inteira tivesse decidido fazer ioga sem aviso prévio. A SMTT bloqueou a via entre Francisco Porto e Ananias Azevedo, como quem isola um coração que insiste em palpitar fora do ritmo. O óleo, esse artista invisível, espalhou seu verniz pelo asfalto e impôs uma coreografia involuntária — rodas girando, corpos voando, reflexos cintilando. Uma pista que virou poema escorregadio, metáfora líquida da fragilidade urbana. (Notícia local confirmada pela SMTT em Aracaju.)
E enquanto o solo de Sergipe cantava sua cantiga escorregadia, longe dali, no coração duro da capital federal, outros corpos protagonizavam uma tragédia com ar de comédia involuntária. Jair Bolsonaro, homem de muitas quedas — políticas e agora físicas — passou mal durante a madrugada na cela onde cumpre sua longa pena. Dizem que dormia e, num repente que parecia ter saído de um conto kafkiano, perdeu o equilíbrio e encontrou a dureza cruel de um móvel… e a dureza ainda mais cruel de ser notícia mundial. Teve um traumatismo cranioencefálico leve — como se diz com a frieza incomum de quem descreve naufrágios com a serenidade de um relator de contas — e agora aguarda em observação, como um relógio clínico que marca não horas, mas ironias. A falha do corpo ecoa como símbolo de um corpo político em convulsão.
Mas o teatro global, esse carrossel de vontades e vaidades, rodopiava ainda mais longe, nas ondas bravas do Atlântico Norte, onde petroleiros e submarinos disputavam o protagonismo de um roteiro que parece escrito por um roteirista com humor negro.Trata-se do Bella 1 — navio que, como protagonista de novela mexicana, mudou de nome (agora Marinera), pintou bandeiras como se mudasse de fantasia num carnaval político e, afinal, foi alvo de uma perseguição marítima digna de epopeia oceânica. Forças dos Estados Unidos perseguiram o navio por quase três semanas — um caça e um fugitivo que lembram mais heróis trágicos do que peças de tecnologia naval — até que a Rússia, como um pai ciumento protegendo seu “filho petroleiro”, despachou um submarino para escoltar a embarcação em sua odisseia pelo Atlântico. O resultado? Um entrelace de potências, onde o petróleo se torna metáfora ardente de um jogo de dominós geopolíticos: quem cai primeiro, quem escorrega, quem se recupera.
E tudo isso num mesmo dia! Um país onde avenidas reluzem óleo como se fossem versos escorregadios, um ex-presidente que tropica nas sombras de sua cela, e no oceano distante, petroleiros e submarinos reciclando a velha dança da guerra fria. Aqui, o cotidiano parece ter sido escrito com um tinteiro de sarcasmo e tinta de crítica: a pista bloqueada parece metáfora de estradas políticas — às vezes imundas, às vezes perigosas — por onde queremos passar. Bolsonaro caindo na cela é uma ironia hiperbólica da queda de gigantes que um dia imaginaram que dominariam montanhas. E o navio desenfreado sob escolta de um submarino russo? Ah, esse é um sonho de poeta de mar tempestuoso — uma metáfora viva da fragilidade das alianças e da futilidade das fronteiras diante das forças que verdadeiramente movem o mundo.
Espanta-me, por fim, como cada notícia carrega o sopro quente da vida crua: há feridas leves que clamam por atenção, há ruas encharcadas que mostram nossa vulnerabilidade física e espiritual, e há mares distantes onde nações jogam seus peões como se fossem peças de dominó sem rosto. É, meus caros, um dia que se estende como poema sensorial — cada imagem atravessando a retina da história com verbo pulsante, crítica afiada e uma emoção que nos lembra: não somos meros espectadores, mas personagens involuntários neste teatro gigantesco chamado mundo.




