CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 05 de abril de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
Domingo de Páscoa amanheceu com cheiro de incenso e gosto de lágrima — uma mistura estranha, como café com sal, dessas que a vida insiste em servir sem pedir licença. Enquanto o mundo celebrava a ressurreição, Sergipe baixava a cabeça em luto: partia João Ávila, jardineiro de viagens e semeador de destinos, vencido não pela morte, mas por essa doença que mastiga o tempo como quem rói ossos — o câncer, esse inquilino cruel que nunca paga aluguel e ainda leva a casa inteira embora.
E a morte, essa senhora elegante de véu escuro, caminhou de mansinho pelos corredores de um hospital em Aracaju, apagando uma vida como quem sopra uma vela — não por falta de luz, mas por excesso de vento. Ficaram os filhos, a esposa, as memórias… esse álbum invisível que a saudade folheia com dedos trêmulos.
Mas o Brasil, ah… o Brasil não para nem para chorar direito. Enquanto um corpo desce à terra, outros sobem em palanques. Governadores e prefeitos largam seus cargos como quem abandona um barco antes da tempestade — ou talvez durante — vestindo a fantasia eleitoral com um sorriso de plástico e promessas recicladas. A lei chama de desincompatibilização; o povo, mais íntimo da realidade, chama de “troca de roupa no meio do baile”. Saem do poder pela porta da frente, mas deixam a sombra sentada na cadeira, como quem esquece o casaco num lugar que pretende voltar.
E lá do outro lado do mundo, o planeta lateja como ferida aberta. Um piloto resgatado em meio a tiros — o céu transformado em campo de caça, onde homens voam como pássaros metálicos e caem como folhas em outubro. O barulho das balas ecoa como trovão nervoso, lembrando que a humanidade ainda brinca de guerra como criança que não aprendeu o peso do próprio brinquedo.
E assim, neste domingo de Páscoa, a vida fez seu sermão silencioso: entre a cruz e o palanque, entre o hospital e o campo de batalha, entre o adeus e a ambição, seguimos — nós, pobres mortais — equilibrando esperança e desencanto como quem carrega um ovo de Páscoa rachado… doce por fora, frágil por dentro, e com a surpresa quase sempre indigesta.




