CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 02 de outubro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
O dia 2 de outubro nasceu com cheiro de álcool no ar, mas não aquele perfume poético da boemia, e sim o hálito suspeito de garrafas maquiadas em Poço Redondo. Duzentos litros de bebidas adulteradas foram apanhados pela polícia como se fossem estudantes cabulando aula. Garrafas de tampa violada, lacres sobrepostos, tampas improvisadas com plástico — parecia desfile de fantasias do carnaval etílico. Era como se até o copo de boteco tivesse entrado na era das fake news: até a pinga anda mentindo.
E que ironia cruel! O trabalhador, que já bebe para esquecer a dureza da vida, agora corre o risco de lembrar eternamente — no hospital ou no além. O metanol, esse assassino invisível, não apareceu nas amostras, mas rondou feito fantasma zombeteiro, lembrando que a alegria do pobre até quando é líquida precisa passar por perícia científica.
Enquanto isso, no universo paralelo da esperança numérica, a Mega-Sena resolveu brincar de esfinge. O prêmio, agora em R$ 12 milhões, continua acumulando como se fosse tesouro escondido em pirâmide egípcia. Os números sorteados — 04, 23, 30, 39, 40, 41 — parecem senha de Wi-Fi de botequim: todo mundo tenta, mas só 13 conseguiram chegar perto, levando quase cem mil cada um. É o tipo de quantia que deixa o sujeito rico por uns três carnavais e pobre de novo no São João seguinte.
A loteria é isso: uma cachaça matemática, uma embriaguez sem ressaca, onde o pobre troca o pão do dia por um bilhete, acreditando que vai acordar milionário. E a Caixa Econômica, essa velha cartomante, sorri e embaralha as bolas com a malícia de quem sabe que o milagre já está reservado para poucos.
Do outro lado do planeta, em Los Angeles, a notícia chega como labareda: um incêndio devora uma refinaria. Chamas dançando como bailarinas furiosas, fumaça subindo como oração invertida, bombeiros correndo como gladiadores na arena do fogo. Não se soube de feridos, mas a cidade tremeu com a explosão, lembrando ao mundo que a gasolina, além de queimar no bolso, também gosta de brincar de dragão cuspidor de fogo.
E cá estamos nós, entre a pinga falsificada do sertão, o sonho milionário do sorteio e a chama colossal da Califórnia. Tudo se conecta numa metáfora só: a vida é uma bebida adulterada, um bilhete acumulado e uma refinaria em chamas. O povo bebe, sonha, queima — e segue.
Porque viver, afinal, é isso: equilibrar-se entre a garrafa suspeita, a aposta improvável e a explosão inevitável, com a esperança teimosa de que amanhã o gole será puro, o número sairá certo e o fogo, enfim, se apagará.




