CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 02 de março de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
(Luzes acesas. Cortina se abre. O narrador entra com um guarda-chuva numa mão e um livro de Geografia na outra.)
Senhoras e senhores, respeitável público, o espetáculo de hoje atende pelo nome de “Dilúvios, Drones e Dicionários”.
Primeiro ato: a chuva.
Sergipe resolveu ensaiar para a arca de Noé. Cento e dezenove milímetros de água em noventa e seis horas. Não foi chuva, foi um abaixo-assinado das nuvens. Canindé de São Francisco e Poço Verde lideraram o ranking como se disputassem medalha olímpica da enxurrada. A Defesa Civil monitora, calcula, anota — e o povo olha para o céu com aquela expressão de quem pergunta: “São Pedro, meu amigo, o senhor está testando a resistência do telhado?”
A chuva caiu grossa, pesada, barroca. Caiu com sotaque de trovão. As ruas viraram espelhos turvos onde o céu se contempla arrependido. A água entrou nas casas sem pedir licença, como visita inconveniente que chega molhada e ainda quer café quente. E a gente aqui, aprendendo que o clima não lê decreto, não respeita calendário, não pede autorização à planilha orçamentária.
Segundo ato: a educação.
No meio do temporal, surge um guarda-chuva colorido chamado esperança. O Instituto Federal de Sergipe, em parceria com o Instituto Federal sul-rio-grandense, abre trinta mil vagas para cursos de inglês e espanhol. Trinta mil! É quase um exército de verbos irregulares marchando contra a ignorância.
Enquanto a água desce pelas calhas, o conhecimento sobe pelas telas. EaD: Educação a Distância — mas nunca distante do sonho. Basta ter concluído o 7º ano. Só isso. A língua estrangeira não exige passaporte, exige coragem. E eu imagino nossos jovens de Japaratuba, de Pirambu, de Canindé, conjugando “to be” enquanto o mundo lá fora insiste em ser tempestade.
Porque aprender outro idioma é abrir janela em casa alagada. É dizer ao mundo: “Eu posso atravessar fronteiras sem sair da minha rua.”
Terceiro ato: os penduricalhos.
Em Brasília, o enredo é outro. O procurador-geral limita pagamentos, corta retroativos, coloca o teto constitucional como guarda-sol sobre salários que andavam querendo virar arranha-céus. R$ 46,3 mil. O número ecoa como cifra de loteria premiada.
E eu penso, com minha ironia de professor que já fez mil contas no quadro: teto constitucional é como guarda-chuva em dia de tempestade moral. Uns acham pequeno demais. Outros nunca tiveram um.
A palavra “penduricalho” parece nome de enfeite de Natal, mas pesa no bolso da República. O Brasil é um país onde o vocabulário jurídico soa como poema surrealista. E a gente, cá embaixo, tentando pagar o boleto que não aceita metáfora como forma de pagamento.
Quarto ato: petróleo e pólvora.
A Petrobras diz que não há risco de desabastecimento. Mas o setor dos combustíveis sente cheiro de aumento no ar. E combustível, meus amigos, é como humor de sogra: qualquer faísca vira incêndio.
Lá fora, no Oriente Médio, drones riscam o céu como mosquitos metálicos. A embaixada dos EUA na Arábia Saudita é atingida. O Irã intensifica ataques. Mísseis cruzam a noite como vírgulas explosivas numa frase mal escrita da humanidade. O planeta anda redigindo sua própria redação com tinta de fumaça.
O mundo brinca de xadrez com peças inflamáveis. Reis se movem pouco. Peões explodem primeiro.
E nós aqui, no interior de Sergipe, ouvindo as notícias como quem escuta trovão distante, mas sabe que o vento viaja.
Quinto ato: reflexão.
Chove em Canindé.
Abrem-se cursos de idiomas.
Cortam-se penduricalhos.
Voam drones.
Sobem combustíveis.
O mundo é um palco onde a tragédia ensaia comédia e a comédia tropeça na tragédia. A chuva lava a rua, mas não lava a desigualdade. O curso de inglês ensina “future”, mas o futuro ainda precisa de tradução. O teto constitucional tenta impor limite, mas a ambição humana não cabe em planilha.
E eu, professor, cronista, filho desta terra, olho para o céu carregado e para a tela iluminada do celular e penso: estamos todos aprendendo a conjugar o verbo resistir.
Resistir à enchente.
Resistir ao preço da gasolina.
Resistir ao noticiário que parece roteiro de filme apocalíptico.
Resistir à tentação de achar que nada muda.
Mas muda.
A chuva passa.
O curso começa.
O salário é limitado.
O drone cai.
O preço sobe — e o povo reclama.
E reclamar, meus caros, também é verbo democrático.
(Luzes diminuem. O narrador fecha o guarda-chuva.)
Que março siga seu espetáculo. Que as nuvens aprendam moderação. Que os drones aprendam silêncio. Que os cofres aprendam decência. E que nossos alunos aprendam inglês, espanhol — e sobretudo, aprendam a ler o mundo.
Porque quem aprende a ler o mundo não se afoga tão fácil.
Cortina fecha.
Mas a vida… ah, a vida continua em cartaz.




