CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 01 de fevereiro de 2026

Fevereiro chegou com o show de notícias

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 01 de fevereiro de 2026
Publicado em 02/02/2026 às 1:50

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

Fevereiro entrou pela porta da frente como quem pede licença, mas já senta no sofá e mexe no controle remoto do mundo. Veio com cara de mês curto e língua comprida, desses que falam rápido, ri alto e choram no intervalo do comercial. Janeiro saiu arrastando chinelo, suando despedidas, e fevereiro chegou perfumado de ironia, trazendo flores, espelhos, troféus, grades e fronteiras — tudo misturado no mesmo buquê de notícias.

Começamos pelo espelho grande da passarela, onde Sergipe desfilou de salto alto e sorriso de vitrine: uma Miss Brasil Mundo coroada, faísca de luz num país que vive apagando lâmpadas. Gabriela Botelho — nome de atriz de novela das oito — ergueu a faixa como quem levanta uma bandeira num território de autoestima em guerra. Natural de Minas, representando Sergipe, provando que o mapa também tem poesia: gente nasce num canto e floresce noutro. O Brasil, esse país que adora julgar pela capa, sorriu para o reflexo e disse “bonita, sim senhor”, enquanto o espelho respondeu com brilho e patrocinadores. Beleza venceu — mas que ninguém esqueça: beleza também cansa de carregar expectativas como se fossem malas sem rodinhas.

Da passarela, pulamos para o palco onde o tempo ensaia aplausos antigos. Caetano e Bethânia ganharam Grammy — e o som da vitória foi um silêncio elegante, porque eles nem estavam lá. Dois baianos atravessando décadas como quem atravessa ruas sem pressa, deixando rastros de canção. A música, essa senhora de vestido longo, sorriu com dentes de vinil e abraçou o prêmio como quem diz: “tarde ou cedo, eu chego”. Caetano acumulou Grammys como quem coleciona mares; Bethânia, estreante tardia, recebeu o primeiro como quem colhe uma flor que sempre esteve no quintal. O mundo ouviu o eco do Brasil cantando em tom global, e a língua portuguesa dançou valsa com o planeta.

Mas o riso tropeça quando a notícia muda de calçada. Nos Estados Unidos, um menino de cinco anos foi detido pelo ICE — cinco anos, idade de mochila leve e lancheira colorida. Preso a caminho da escola. A infância algemada por metas. O coração do mundo bateu fora do ritmo, e a Justiça — essa senhora de óculos que às vezes esquece onde colocou a humanidade — resolveu lembrar: criança não é estatística, trauma não é meta. O menino voltou para casa, Minnesota respirou, e a notícia deixou um gosto agridoce: alívio com ressaca. Porque quando uma criança precisa de ordem judicial para ser criança, algo apodreceu no armário das leis.

E, como se o noticiário fosse um tabuleiro de xadrez, a fronteira de Rafah mexeu suas peças. Passagem entre Gaza e Egito, controlada, vigiada, reaberta com passos contados e olhares de lupa. Fronteiras são portas que rangem: abrem com cautela, fecham com medo. Gente atravessa levando casas invisíveis na mochila — lembranças, perdas, fotografias que doem. A paz, ali, caminha de muletas, pedindo documento e esperança. Cessar-fogo é pausa de respiração num pulmão cansado; reabrir passagem é prometer caminho num mapa cheio de rasuras.

Fevereiro, portanto, começou assim: com coroa e grades, com canção e choro, com fronteiras e espelhos. Um mês curto carregando notícias longas. Rimos com a faixa, aplaudimos o Grammy, engolimos seco a infância detida, rezamos pela porta entreaberta em Gaza. O mundo, esse cronista apressado, escreveu tudo no mesmo parágrafo.

E nós seguimos lendo, tropeçando nas vírgulas, tentando achar sentido nas reticências. Porque viver é isso: a gente ri, critica, sente, faz piada para não desabar, escreve para respirar. Fevereiro que venha — mas venha com mais humanidade na bagagem e menos ironia nos bolsos.

Saudações ,

Professor Antonio Glauber