CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre o verdadeiro som do São João

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre o verdadeiro som do São João
Publicado em 21/06/2026 às 14:46

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

Chegue mais, meu povo! Acenda a fogueira da memória, passe um café coado na hora e escute o estalo da lenha, porque hoje a conversa é séria. O São João parece ter acordado olhando para o espelho e perguntando: “Quem sou eu?”

O verdadeiro São João nasceu embalado pelo fole da sanfona, pelo resmungo elegante da zabumba e pelo choro afinado do triângulo. O coração da festa bate no compasso do forró, do xote e do baião. Esses ritmos não são apenas músicas; são a certidão de nascimento da cultura nordestina. São o cheiro do milho assado, o calor da fogueira, a quadrilha, a bandeirinha balançando ao vento e o sorriso de quem dança de rosto colado.

Mas, de uns tempos para cá, resolveram fantasiar o São João de outra coisa. Entram no arraial com arrocha, sertanejo e outros estilos como se estivessem tentando convencer um peixe a subir em árvore ou um balão a mergulhar no rio. Não se trata de dizer que esses gêneros não tenham seu público ou seu valor. Têm, e merecem seu espaço. O problema é quando ocupam o lugar daquilo que dá identidade à festa junina.

É como servir sushi na ceia de Natal e chamar de tradição. É como trocar a sanfona por um silêncio vestido de fumaça. Aos poucos, a fogueira vai perdendo calor, e a cultura vai sendo empurrada para o canto do terreiro, enquanto o mercado dita o repertório.

Preservar o São João não é ser contra a modernidade. É compreender que um povo sem memória é como uma sanfona sem fole: até parece instrumento, mas já não produz a mesma alma. Que o forró continue sendo o rei da festa, que o xote siga ensinando a delicadeza do abraço e que o baião permaneça lembrando ao Brasil que o Nordeste não é apenas um lugar no mapa: é um patrimônio cultural que merece respeito.

Porque, quando o último acorde da sanfona se calar, talvez descubramos tarde demais que não era apenas uma música que estava acabando. Era um pedaço da nossa própria história.