CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 09 de maio de 2025

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
Na esquina dos calendários, onde o tempo costura dores e esperanças com linhas de vento e agulhas de memória, o dia 9 de maio amanheceu com o coração dividido. De um lado, a vacina contra a Influenza, que chega como abraço de mãe em tempo de invernos emocionais; do outro, a despedida de um mestre, cuja ausência desenha saudade nas paredes da ciência e da alma.
Sábado será o Dia D. Não é batalha de guerra, mas há soldados na linha de frente: enfermeiros, professores, idosos, crianças e todos os vulneráveis deste campo minado que é a existência. A vacina, esse escudo líquido, será ofertada com amor, como quem distribui pão em praça pública. E que ironia generosa: é a agulha que fura, mas também a que cura. Em cada gota, um gesto de resistência. Em cada braço estendido, uma metáfora viva do cuidado. Porque em tempos de ego inflado, o que precisamos mesmo é de Influenza domada.
Enquanto isso, a PF, que nunca tira folga nem em dias santos, bate na porta das empresas de cursos de vigilantes. Seriam os vigilantes do sono democrático ou os vigias de portões lucrativos? Eis o mistério da fé e da propina. O Brasil, esse eterno romance policial mal resolvido, tem páginas arrancadas e capítulos ocultos nos bastidores do poder. Fica a pergunta: quem vigia os vigilantes?
No mesmo compasso, um prazo se aproxima: dia 19 é a data-limite para regularizar o título de eleitor. É o título que garante a fala do povo, mas que muitos esquecem no fundo da gaveta junto com os boletos vencidos e as promessas quebradas. Votar virou quase ato de fé — ou de desespero. E num país onde o voto é obrigatório, mas a dignidade é opcional, a urna virou confessionário de esperanças perdidas.
Mas foi no silêncio que ecoa mais alto que a notícia mais pesada do dia aterrissou como um meteorito sobre corações sensíveis: morreu o professor Roberto Jerônimo dos Santos Silva, cientista gigante em humildade, titã da Educação Física, e poeta do saber acadêmico. Não tombou em campo de guerra, mas em trincheiras de hospital. Lutava contra um glioblastoma, esse nome que soa mais a vilão grego do que a célula traidora.
Roberto foi mais que professor — foi árvore de sombra larga em solo universitário, foi rio que não secava em tempos de corte, foi farol na UFS e estrela no céu da América Latina científica. Partiu com a leveza de quem cumpriu sua missão com a seriedade dos que riem com o coração e ensinam com o olhar. Agora, a sala 3 da Osaf se transforma em templo, e o meio-dia da cremação é como um sol que se despede com lágrimas na pira.
Do outro lado do mundo, no Japão, o medo ganhou concreto e aço: uma muralha antitsunami com mais de 400 km e 15 metros de altura ergue-se para proteger a ilha dos caprichos da Terra. É muro que não separa povos, mas tenta barrar o caos. O Japão, esse samurai das tragédias naturais, prefere levantar muralhas a enterrar memórias. E talvez nos ensine que não há proteção maior do que a lembrança da dor convertida em ação.
O Brasil deveria erguer muralhas também — não contra o mar, mas contra o descaso. Uma muralha de livros contra a ignorância, uma de afeto contra o ódio, uma de ética contra a corrupção. Enquanto o Japão constrói escudos de concreto, seguimos aqui tentando colar com fita crepe o que se rompe com descaso institucional.
E assim se despede o 9 de maio: com a vacina que é esperança, a Polícia que é suspeita, o título que é cobrança, a morte que é legado, e o Japão que é metáfora viva da reconstrução.
O tempo seguirá seus passos — e nós, seus tropeços. Mas que fiquem, ao menos, os rastros de quem fez valer cada segundo com sabedoria e coragem.




