CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 20 de maio de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 20 de maio de 2026
Publicado em 21/05/2026 às 1:27

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

Vamos que vamos para a crônica de hoje.

Quarta-feira chegou vestida de juiz, usando toga de nuvem carregada e apito de salva-vidas. E o Rio do Prata, que deveria ser um espelho líquido para mergulhos e gargalhadas, apareceu no noticiário parecendo personagem de filme de suspense: água com cara de convite e perigo escondido feito vilão atrás da cortina. A Justiça puxou o freio de mão da coragem turística e gritou: “Banho? Hoje não!”. E o rio, coitado, que nasceu para cantar cantigas de correnteza, amanheceu interditado, de castigo, olhando para os banhistas como quem diz: “Voltem quando eu estiver menos elétrico e mais poético”.

Dizem que havia fios. Fios sobre o leito. Fios onde deveriam existir peixes, reflexos e histórias de pescador aumentadas em 347%. A cena parecia invenção de cronista exagerado: o rio querendo ser rio e alguém tentando transformá-lo em tomada. Ainda bem que o bom senso, esse senhor de cabelos brancos e chinelos gastos, resolveu aparecer antes que a tragédia escrevesse um capítulo que ninguém queria ler.

E enquanto Japaratuba segurava o mergulho, lá longe, nos salões do poder, outro espetáculo acontecia: a floresta entrou na Câmara sem convite e saiu perguntando se esqueceram de apagar a luz da consciência. Ambientalistas chamaram de retrocesso. Outros chamaram de desenvolvimento. O debate virou uma partida de cabo de guerra onde a mata está no meio dizendo: “Pelo amor das minhas raízes, puxem devagar!”.

A fiscalização remota quase ganhou tornozeleira eletrônica e o desmatamento, esse atleta olímpico da motosserra invisível, pareceu ouvir um sussurro: “Calma, primeiro vamos avisar que você está sendo multado”. É como avisar ao bolo que ele será comido e esperar que ele fuja da mesa.

No grande teatro das notícias, o rio pediu socorro e a floresta pediu legenda. Um queria menos fios. A outra queria menos cortes. Ambos repetindo a mesma frase com sotaques diferentes: “Cuidem de nós antes que sobrem apenas fotografias e saudades”.

E assim terminou o dia 20 de maio: com o Rio do Prata usando placa de interditado como quem veste curativo e as árvores olhando para Brasília com aquela cara de quem já viu filme demais e conhece o final.

Porque a natureza, meus amigos, até perdoa… mas não parcela eternamente.