CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 30 de janeiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O dia 30 de janeiro amanheceu com cheiro de café requentado e decisões frescas — dessas que saem do forno jurídico ainda queimando a língua da opinião pública. O sol nasceu meio desconfiado, como quem lê manchetes antes de decidir se vai brilhar inteiro ou ficar em meia-luz.
Começamos pela política, essa senhora elegante que vive tropeçando no próprio tapete. Uma liminar desceu do céu do STJ como guarda-chuva em dia de tempestade seletiva e suspendeu a inelegibilidade de Valmir de Francisquinho. A Justiça, essa bailarina de toga, fez um plié jurídico e disse: “calma, ainda não acabou”. Os direitos políticos, que estavam no banco de reserva, voltaram a aquecer. O político, discreto como poste em esquina escura, avisou que não vai se pronunciar. O silêncio, nesse caso, falou mais alto que trio elétrico em campanha: gritou prudência, cochichou cálculo, murmurou “esperem os próximos capítulos”.
Enquanto isso, no chão duro da realidade, a humanidade tropeçou feio. O homem que esfaqueou um cachorro na Grande Aracaju foi preso. O animal morreu — e com ele morreu mais um pedaço da nossa fé na espécie que se diz racional. A faca não cortou só carne; rasgou o tecido moral da cidade. O agressor se apresentou acompanhado de advogados, como quem leva gravata para o velório da própria consciência. A Justiça, dessa vez, vestiu a farda da urgência e decretou prisão preventiva. O cachorro não volta, mas a sociedade respira aliviada por um segundo — curto, muito curto — como quem encontra água no deserto e sabe que ainda há sede pela frente.
No meio desse cenário de sombras e luzes intermitentes, o IBGE apareceu com um dado que pareceu raio de sol atravessando nuvem grossa: o desemprego caiu para 5,6% em 2025, o menor da série histórica. Números sorriram, gráficos dançaram, planilhas bateram palmas. Menos gente sem trabalho, menos mesas vazias, menos geladeiras fazendo eco. Mas o dado veio com sapato de cristal: bonito, frágil e dependente do próximo passo. Porque emprego não é só estatística — é dignidade em parcelas mensais.
E quando você acha que o noticiário já fez tudo, surge um homem fantasiado de Batman invadindo uma prefeitura na Califórnia para protestar contra o ICE. Sim, o Cavaleiro das Trevas trocou Gotham por Santa Clara. Subiu ao púlpito, capa imaginária esvoaçando, e denunciou operações contra imigrantes às vésperas da cidade receber a final da Super Bowl. Enquanto uns usam toga, outros usam máscara. Enquanto uns falam por liminar, outros falam por encenação. A democracia, cansada, assistiu sentada, perguntando se precisava rir ou chorar.
O dia terminou assim: com a política de bengala nova, a justiça tentando equilibrar balança e espada, um cachorro lembrando que civilização se mede pelo cuidado com os mais frágeis, o emprego respirando melhor e um Batman lembrando que, quando o sistema falha, até a fantasia vira megafone.
Janeiro está se despedindo com gosto agridoce. Um mês que nos ensinou que o país anda de salto alto em chão esburacado, mas segue caminhando — tropeçando, levantando, ironizando o próprio tombo. Porque, no fim, o Brasil é isso: uma crônica viva, escrita a lápis, com rasuras, manchas e, às vezes, um inesperado ponto de exclamação.




