CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 29 de Janeiro de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 29 de Janeiro de 2026
Publicado em 30/01/2026 às 2:10

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

Começamos a crônica de hoje com uma notícia muito triste — dessas que chegam sem pedir licença e sentam no sofá da alma, sujando o estofado do dia. Um cachorro chamado Zico foi esfaqueado na Grande Aracaju. Não foi metáfora: foi facão. Não foi acaso: foi crueldade. Na Praia da Atalaia Nova, no município da Barra dos Coqueiros, o mar ensaiava seu azul turístico enquanto a covardia fazia turismo no coração humano. O bicho, que não assina tratados nem participa de debates, teve o olho ferido, o focinho rasgado, a vida interrompida. O animal ainda lutou, foi levado ao veterinário, como quem acredita que o mundo pode ser consertado com pontos e carinho — mas o relógio da violência é impaciente. Horas depois, silêncio.

A cidade acordou com cheiro de sal e vergonha. As câmeras identificaram o suspeito, mas a justiça, essa senhora que anda de bengala e tropeça em processos, ainda procura o assassino. O Disque-Denúncia toca como sino de igreja vazia: chama, chama, chama… Quem atende é a consciência? O cachorro não tinha partido, não tinha discurso, não tinha culpa. Tinha apenas um rabo imaginário abanando a esperança. E foi abatido como se esperança fosse coisa descartável.

Enquanto isso, a Mega-Sena acumula e promete R$ 115 milhões. Os números dançam no papel como vaga-lumes estatísticos: 06, 07, 09, 43, 44, 53. A sorte, essa influencer caprichosa, distribui likes em forma de milhões para poucos, enquanto a maioria segue pagando boletos com a moeda da paciência. Há quem diga que dinheiro não traz felicidade; talvez traga anestesia. Porque, com 115 milhões, dá para comprar silêncio, mas não dá para devolver um latido. Dá para erguer muros, mas não para ressuscitar um olhar arrancado. A quina sorri para 68 apostas; a cidade chora por um cachorro. Matemática estranha: somam-se cifras, subtraem-se vidas.

Do outro lado do mundo, o Irã acusa a Europa de hipocrisia e ameaça reagir. A diplomacia entra em cena vestida de palavras duras, como se a língua fosse espada e o parágrafo, granada. “Movimento perigoso”, dizem. Perigoso é o vocabulário virar trincheira enquanto corpos reais — humanos ou não — continuam caindo. A política internacional é um teatro de sombras: cada um aponta o dedo para o outro, todos escondem a mão que empurra. Manifestantes reprimidos, listas terroristas, promessas recíprocas — o globo gira, a retórica ferve, e a vida, pequena e frágil, paga o ingresso mais caro.

O dia 29 de janeiro caminhou assim: com um cachorro ferido e morto por um covarde, milhões acumulados na loteria e ameaças acumuladas no planeta. Três notícias, um mesmo fio: a escolha. Escolhe-se ferir ou proteger. Escolhe-se dividir ou acumular. Escolhe-se falar para ferir ou falar para curar. A Praia da Atalaia Nova continua bonita nas fotos, mas agora carrega um ponto cego. O mundo segue rodando, mas manca.

Que esta crônica não seja apenas leitura; seja incômodo, seja indignação contra a violência. Que doa como sal em ferida aberta — não para machucar, mas para lembrar que ainda estamos vivos e podemos mudar o mundo para melhor.