CRÔNICA

Crônica do Professor Antônio Glauber Sobre as notícias do dia 27 de janeiro de 2026

Crônica do Professor Antônio Glauber Sobre as notícias do dia 27 de janeiro de 2026
Publicado em 29/01/2026 às 2:10

Por Antônio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

O 27 de janeiro chegou como um acorde dissonante numa sinfonia de absurdos — aquele tipo de dia que a vida escreve com caneta-bisturi, cortando e remendando a pele da realidade com pontos de humor negro e ironia hiperbólica.

A manhã acordou estranha. Lá fora, a BR-235 parecia um dragão preguiçoso estendendo suas curvas sobre o asfalto quente, sussurrando aos motoristas: “Diminua… diminua… ou eu te ensino a dançar capoeira com o para-choque na árvore.” E o DNIT, em seu trono de planilhas e café frio, decretou a redução de velocidade — não por capricho, mas como se uma tartaruga de capacete pudesse, de súbito, cruzar a estrada e te fazer repensar o sentido da vida enquanto mastiga uma alface inteira. Segurança para pedestres? Claro… porque, naquele trecho, cada passo parece uma odisseia heroica, quase épica, digna de disco de vinil e trilha sonora dramática.

E enquanto o motorista franzia a testa, ajustava o retrovisor e imaginava combinar essa travessia com um ato de fé, lá vinham notícias do outro lado do mundo clamar por nossas emoções. No cenário geopolítico, Brasil e União Europeia decidiram brincar de cupido digital: assinaram um acordo para proteger a transferência de dados pessoais, como se nossos segredos — fotos de férias, mensagens apagadas às 3 h da manhã e senhas suspeitas — fossem agora parte de um tratado de paz universal. Um documento tão poético quanto burocrático, reduzindo custos, podando a selva da papelada e prometendo uma amizade digital eterna entre blocos econômicos. É a diplomacia beijando a tecnologia na praça pública da globalização.

Mas, meus caros, segure seu suspiro poético, pois o que veio depois foi um tapa de realidade crua: lá nos Estados Unidos, um relatório derrubou versões oficiais sobre a morte do enfermeiro Alex Pretti — uma narrativa militarizada que insistia em pintar um cidadão como ameaça, como se notícias fossem pinceladas de um artista enfurecido. Porém a verdade emergiu, tropeçando, com ares de ironia trágica: não havia arma empunhada, não havia herói nem vilão clássico, apenas um homem que se tornou estatística. E o governo recuou, como quem tira o pé do acelerador depois de bater o carro no muro da própria retórica inflamável.

Ah, que mundo é esse em que acordos internacionais tratam nossos dados como nobres viajantes em passaportes invisíveis, enquanto vidas humanas se perdem entre contradições oficiais e manchetes frenéticas? É um circo onde os palhaços usam gravatas e os reis estão nus, dançando sobre tapetes de cifras e siglas, enquanto o público — nós — aplaude com a respiração suspensa.

E aqui em Japaratuba, o calor parece derreter o tempo. O sol, metáfora incandescente, assa pensamentos e esquenta emoções como quem prepara um feijão com brasa viva. Sinto o cheiro da ironia na brisa que passa, uma brisa quente e sensorial que traz o perfume de notícias, misturado com terra úmida e gasolina de ideias que não param de queimar na minha cabeça.

O cronista que vos fala — professor, sonhador de metáforas, cultor de sarcasmo e jardineiro de reflexões críticas — olha para o mundo e se pergunta: será que nossos dados viajando pela Europa estão mais seguros que nossos passos na BR-235 ou que nossas vidas frente a um relatório contraditório? Talvez os bytes de nossas vidas estejam mais seguros entre servidores europeus do que nós estamos nas estradas, nas praças ou nas mãos de poderes que trocam verdades por narrativas embaladas.

E então me pego escrevendo, porque escrever é o último refúgio dos que insistem em ver poesia onde outros veem só rotina. É na poesia que a velocidade reduz é um sussurro de mãe para filho; é na poesia que um acordo de proteção de dados vira abraço entre nações; é na poesia que a tragédia humana ecoa como grito por justiça.

No fim, o 27 de janeiro partiu como entrou: com o som de pneus na estrada, informações que atravessam continentes e corações que, apesar de tudo, ainda batem — por emoção, por crítica, por esperança.

E se me perguntarem qual é a velocidade da vida? Diria: é aquela que nos faz reduzir, refletir e lembrar que, às vezes, o mais importante não é o passo que damos, mas a intensidade com que sentimos cada parágrafo desse grande livro chamado mundo.