CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 26 de Janeiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
Há dias que acordam com cheiro de incenso antigo e barulho de notificação nova. O dia 26 de janeiro de 2026 abriu os olhos assim: metade rosário, metade ringtone; metade pedra centenária, metade wi-fi inquieto. O mundo, esse menino levado, decidiu brincar de paradoxo.
No alto do morro do São Gonçalo, o Cristo de São Cristóvão completou cem anos. Cem. Um século inteiro de braços abertos para a cidade, como quem diz “entra, que a casa é tua”, enquanto a rodovia passa lá embaixo feito rio de aço, levando e trazendo pressa. O Cristo viu o bonde virar ônibus, o rádio virar feed, o silêncio virar debate. Viu promessas envelhecerem mais rápido que gente e esperanças insistirem em nascer de novo. É um Cristo que não posa para selfie: ele vigia. Não grita: sussurra. Não corre: permanece. Um Cristo mais velho que o do Rio, como um avô que sorri de canto e cochicha: “Calma, eu já vi esse filme.”
Enquanto a pedra celebra o tempo, o tempo brinca de ironia com a fé dos homens. O ex-presidente, que outrora rezou discursos e pregou palanques, agora pede pastor… e depois padre. A fé virou fila, senha, protocolo. O céu, ao que parece, exige autorização. Deus observa, coça a barba metafórica e pergunta: “Vocês decidiram a placa da porta?” É o ecumenismo por necessidade, o rosário por estratégia, a oração com carimbo. O sagrado virou expediente — e o expediente fecha às cinco.
Do outro lado do mapa, o telefone toca. Cinquenta minutos de conversa entre Lula e Trump. Cinquenta minutos: um rosário laico de minutos contados, cada um com sua conta a pagar. A Venezuela entra na linha como parente distante que todo mundo cita, ninguém resolve. Combinam visita, trocam sorrisos diplomáticos invisíveis, prometem paz com data a definir. A paz, coitada, fica na sala de espera, lendo revista velha. O mundo governa por chamada perdida.
Na França, o debate ferve como café esquecido no fogo: redes sociais para menores de 15 anos, sim ou não? Celular na escola, entra ou fica do lado de fora? Macron pressiona, deputados ponderam, adolescentes atualizam. É a batalha entre o dedo e o cérebro, entre o toque e o tempo. A escola tenta ensinar silêncio num mundo que grita; tenta alfabetizar a atenção num oceano de distrações. Proibir é gesto duro; liberar é aposta arriscada. No meio, a infância — essa terra frágil — pedindo sombra.
E assim o dia passa, como vento que mistura pó de estrada com cheiro de vela. Um Cristo centenário lembra que a história precisa de pausa; a política insiste em correr; a fé muda de roupa conforme a estação; a tecnologia exige limites como criança testando bordas. O mundo é esse teatro onde a pedra observa e o homem improvisa.
Talvez a lição venha do morro: braços abertos não são licença para empurrões. Talvez venha do relógio: nem tudo se resolve em cinquenta minutos. Talvez venha da escola: o silêncio também ensina. Ou talvez venha da fé: menos carimbo, mais cuidado.
No fim do dia, São Cristóvão continua ali, firme, colecionando amanheceres. E nós, apressados, seguimos aprendendo — aos tropeços — que o tempo não se curva ao feed, mas a esperança, teimosa, sempre encontra um jeito de subir o morro.




