CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 24 de janeiro de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 24 de janeiro de 2026
Publicado em 25/01/2026 às 23:29

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

O dia 24 acordou com o céu coçando a garganta e o chão prendendo a respiração. O sábado veio com cara de piada amarga: dessas que a gente ri com um olho e chora com o outro. O mundo resolveu tropeçar em si mesmo — e caiu fazendo barulho.

Em Nossa Senhora do Socorro, o teto da Paróquia Nossa Senhora da Conceição cansou de fingir eternidade. Desabou. Como quem diz: fé também pesa quando o concreto envelhece. O sagrado, de repente, virou pó, e o silêncio dos escombros falou mais alto que qualquer sermão. O Corpo de Bombeiros chegou com passos de cuidado, mãos de paciência e olhos de varredura. Não houve feridos. Milagre moderno: ninguém machucado, só o coração com poeira. O templo ficou entregue aos cuidados do município, e a cidade aprendeu — de novo — que até os céus precisam de manutenção.

Enquanto isso, lá do outro lado do balcão da sorte, a Mega-Sena resolveu distribuir sorrisos como quem joga confete em carnaval fora de época. Cinco apostas simples no Paraná acertaram cinco números e levaram R$ 22.818,11 cada. Não é fortuna de novela, mas paga as contas do mês, compra esperança em suaves prestações e permite sonhar sem pedir licença. O dinheiro, esse personagem vaidoso, fez pose de anjo por alguns minutos — depois, voltou a ser boleto.

E se aqui o teto cai, lá fora o céu congela. Uma megatempestade de neve e gelo ameaçou os Estados Unidos como um dragão branco soprando inverno. Termômetros desceram a -38ºC, e os meteorologistas anunciaram: os próximos dez dias serão os piores em 40 anos. O frio virou manchete, virou medo, virou cobertor curto. O planeta, irônico, troca de humor como quem troca de camisa: ora ferve, ora congela. A Terra anda sarcástica — e não pede desculpas.

Na Groenlândia, a capital ficou às escuras. Um apagão, desses que fazem a noite engolir a cidade antes da hora. A concessionária explicou: foi um acidente. Sempre é. O curioso é que o blecaute veio poucos dias depois da atualização dos protocolos de sobrevivência. A luz, personificada, resolveu testar o manual. Sumiu. E deixou a pergunta piscando no escuro: estamos preparados ou só bem-intencionados?

E então, o dia puxou o freio de mão do riso e pediu silêncio. Chegou a nota de pesar. Pirambu perdeu José Alexandre. Ex-vereador, homem de praça e de palavra, sujeito que ajudou a moldar o município como quem cuida de um jardim — com paciência, suor e conversa. Pirambu perdeu um pedaço de sua História, e a História perdeu um nome que fazia sentido. A cidade, órfã por um instante, baixou a cabeça. A saudade entrou sem bater, sentou na sala e ficou. Descanse em paz, Seu Zé Alexandre. Que Deus o receba de braços abertos, com luz suficiente para iluminar os becos da memória.

Assim foi o 24 de janeiro: um dia com cheiro de poeira e perfume de esperança; com o riso breve da loteria e o soluço longo da despedida; com o frio que ameaça e o calor humano que resiste. Um sábado em que o mundo nos lembrou, com ironia hiperbólica e poesia involuntária, que nada é fixo — nem o teto, nem o clima, nem a vida. Só a necessidade de cuidar: das casas, das cidades, do planeta e, sobretudo, uns dos outros.

Porque no fim, quando a luz falha, o teto cede e o frio aperta, é a gente que sustenta a fé — com mãos, memória e humanidade.