CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 23 de janeiro de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 23 de janeiro de 2026
Publicado em 24/01/2026 às 17:38

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

Vamos que vamos, leitores e leitoras. Sexta-feira chegou de sandália rasteira, mas o noticiário veio de coturno, pisando fundo no coração e no bolso. Sente-se. Respire. Porque a crônica de hoje tem cheiro de maresia triste, barulho de moedas nervosas e eco diplomático de portas semiabertas.

Na Praia da Aruana, o mar — esse velho contador de histórias — devolveu à areia um elefante-marinho-do-sul cansado de mundo. Veio frágil, como quem pede licença para morrer. O bicho respirava com dificuldade, e cada suspiro parecia um pedido de desculpa à humanidade: “Desculpem-me por existir num planeta que vocês esqueceram de cuidar”. Veterinários lutaram como heróis sem capa, mas a vida, às vezes, fecha o expediente mais cedo. O óbito não foi só do animal; foi também de um pedaço da nossa consciência ambiental, que insiste em tirar férias prolongadas. O mar chorou em ondas miúdas. A areia vestiu luto. E nós seguimos rolando o feed, como quem passa por um velório sem olhar o caixão.

Enquanto isso, no cofre das instituições, as cifras começaram a suar frio. O BRB olhou o espelho e percebeu um rombo — não desses poéticos que cabem em metáforas, mas um buraco financeiro com fome de zeros. Entre empréstimos e aportes, o banco ensaia uma dança cautelosa, pedindo bênção ao Banco Central como quem pede água num deserto regulatório. Dinheiro, esse animal arisco, ora morde, ora foge; e quando some, deixa rastros de planilhas em pânico. O capital se capitaliza, o risco se organiza, e o cidadão observa, com a ironia de quem sabe: quando o barco balança, o colete salva-vidas raramente tem CPF popular.

E no tabuleiro internacional, a diplomacia virou xadrez jogado com peões de aço. Espanha e Alemanha agradeceram, mas disseram “não” ao convite de Trump para o tal “Conselho da Paz”. Paz convocada por convite soa como chuva marcada em calendário: pode até cair, mas ninguém garante. Sessenta países na lista, o Brasil em silêncio — aquele silêncio que não é ouro, é suspense. A geopolítica boceja, coça o queixo e escolhe o momento de falar. Porque, no teatro do mundo, até a paz pede ensaio, figurino e palco certo. E às vezes, recusar é a forma mais educada de dizer: “Não contem comigo para esse ato”.

Assim foi a sexta-feira: um animal marinho que se despede como poema interrompido; um banco que pede colo aos números; e um conselho de paz que nasce com mais agenda do que consenso. O planeta suspira, os mercados piscam, as chancelarias calculam. E nós, aqui de Japaratuba, escrevemos — porque escrever é remar contra a maré da indiferença.

Que a próxima onda traga cuidado.
Que o próximo balanço traga justiça.
Que a próxima diplomacia traga menos palco e mais humanidade.