CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 30 de Setembro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
Setembro se despede como um velho poeta que esqueceu o riso embaixo da cama e deixou sobre a mesa apenas o lenço úmido das lágrimas. O mês não quis fechar a porta em silêncio; bateu-a com estrondo, como quem anuncia que a vida não é novela mexicana com final feliz, mas um drama de improviso.
Na Escola Municipal Mário Trindade Cruz, em Pirambu, a morte de Maria Paula Eduarda, aluna do 9º Ano B, espalhou um luto que não cabe em paredes nem em cadernos. Era jovem, respirava sonhos, e ironicamente foi o próprio ar, o sopro essencial, que lhe faltou em meio a uma crise asmática. Lutou quatro dias como uma guerreira sem armadura, até que o corpo cedeu e a alma foi aprender a lição que não está em livro algum: a da eternidade. E nós, que ficamos, olhamos para a carteira vazia como quem encara um espelho quebrado — refletindo não o rosto, mas a ausência.
Enquanto a dor passeava de luto em luto, o Senado aprovava a segunda etapa da reforma tributária. O futuro “imposto único” chega como um mágico de feira prometendo transformar moedas em justiça social. Mas, cá entre nós, a plateia já sabe o truque: o coelho nunca sai da cartola, sai do bolso do contribuinte. E lá vamos nós, aplaudindo o espetáculo com as mãos calejadas, enquanto o comitê gestor — esse novo Olimpo fiscal — decidirá quem fica com o pão e quem lambe as migalhas. Reforma? Talvez. Milagre? Só se São Mateus, patrono dos cobradores de impostos, resolver interceder.
Do outro lado do oceano, uma decisão judicial nos Estados Unidos trouxe sopro de esperança: o governo Trump foi declarado inconstitucional ao prender estudantes estrangeiros pró-Palestina. A ironia é que, no país que vende a liberdade como seu produto mais caro, precisou um juiz lembrar que a Primeira Emenda não é apenas um enfeite na parede da democracia. A liberdade de expressão, tantas vezes tratada como figurante, subiu ao palco e gritou: “Ainda estou viva!”. Mas a pergunta ecoa: até quando a democracia sobreviverá a políticos que confundem constituição com manual de instruções descartável?
Setembro fecha a cortina. Outubro entra, tímido, vestindo a fantasia de esperança. Mas a cena que fica é dura: a cadeira vazia da menina que partiu, o bolso mais leve do trabalhador e a liberdade respirando por aparelhos nas democracias do mundo.
E eu, cronista de esquina, pergunto: quantas reformas serão necessárias até que se reforme o coração humano? Quantos rios ainda cobrarão vidas até que aprendamos a respeitar sua força? Quantas mortes precoces precisaremos velar para que a vida ganhe prioridade sobre o lucro, sobre a vaidade, sobre o poder?
Setembro se despede em lágrimas, mas outubro traz a chance de um recomeço. Porque, no fim, só resta essa lição poética e cruel: a vida não cabe em leis, nem em impostos, nem em discursos. Ela cabe no sopro. E quando o sopro falta, o silêncio fala mais alto que todos os senadores juntos.
Setembro foi embora deixando a lição de que viver é respirar, mas existir é muito mais: é dar sentido a cada fôlego. Outubro começa. Que não falte ar, que não falte voz, que não falte coragem.




