CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 17 de Agosto de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 17 de Agosto de 2025
Publicado em 18/08/2025 às 6:33

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE

O domingo amanheceu como quem prepara um espetáculo: o sol abriu a cortina dourada, o vento ensaiou suas falas, e o mundo — sempre ator exagerado — trouxe ao palco suas tragédias, suas comédias e, claro, seus terremotos.

O Dragão Azul e o G-8 de Cristal

O Confiança venceu o Floresta por 1 a 0. Pequeno detalhe no placar, mas imenso no coração do torcedor. Foi como se um goleiro tivesse segurado o próprio destino com as mãos. O time proletário, esse dragão que vez ou outra cospe fogo, conseguiu entrar no G-8 da Série C. Parece pouco? Pois não é. Para o povo azulino, é como se tivesse aberto a porta de Nárnia e encontrado um banquete depois de anos de sopa rala. Cada chute foi um verso, cada defesa um poema, cada gol (no caso, o único) uma epifania em azul celeste.

E o Floresta? Ah, coitado. Virou madeira para o dragão fazer fogueira e aquecer o coração da torcida.

Farmácias, frascos e farsas

Enquanto a bola rolava, em São Paulo o dinheiro escorria por corredores secretos. O Ministério Público investiga um esquema bilionário de corrupção: farmácias que não vendiam apenas remédios, mas também ilusões tributárias. O ex-dono da Farma Conde acusou a Ultrafarma de sonegar até 60% do que vendia. Sessenta por cento! É quase como vender uma cartela de aspirina e, em vez de receita médica, entregar um manual de como desaparecer com dinheiro.

O remédio que deveria curar virou veneno de cifras escondidas. O farmacêutico, que deveria dar conselhos sobre dores de cabeça, agora é acusado de fabricá-las em escala industrial. No balcão, em vez de “pode tomar de 8 em 8 horas”, dizia-se: “pode esconder de 8 em 8 milhões”.

Bolívia: o fim de uma missa longa demais

Na Bolívia, o domingo não foi de futebol nem de comprimidos, mas de urna. O MAS, partido que reinava há quase duas décadas, finalmente desceu do altar. Evo Morales e Arce brigaram tanto pelo trono que o povo decidiu tirar o tapete inteiro. O partido que já foi motor de esperança não passou de 3,2% dos votos. Para quem governava com discursos de epopeia, virar nota de rodapé eleitoral é como sair de presidente a figurante em novela das seis.

Agora, dois candidatos disputarão o segundo turno: Paz Pereira, com 32%, e Tuto Quiroga, com 26%. O inédito está na palavra inédito: nunca houve segundo turno na Bolívia. O povo andino, cansado de promessas mais repetidas que novela mexicana, resolveu mudar o canal.

As lembranças do tempo de vacas gordas — ou melhor, de gás gordo — já não enchem a panela. O gás, que um dia inflou a economia, agora é como balão murcho esquecido no canto da sala. A inflação subiu, os dólares sumiram, e a paciência do eleitor virou pó mais fino que folha de coca mascada na feira.

Argélia: a terra treme, o mundo se cala

E para coroar o domingo, a Argélia tremeu. Um terremoto de 5,8 graus sacudiu Tebessa como se fosse despertador de Deus. A terra, cansada de carregar tanto peso humano e suas trapalhadas, resolveu espreguiçar os ossos. O problema é que, quando a terra se espreguiça, gente cai, casa racha, memória se despedaça.

Na televisão, anunciaram o tremor como quem lê a previsão do tempo: “boa noite, amanhã sol, máxima de 30 graus, e hoje um terremoto, magnitude 5,8, nada mais”. Mas para quem sentiu o chão balançar, o mundo virou tambor de escola de samba em plena madrugada.


Epílogo

O domingo de 17 de agosto de 2025 foi um caleidoscópio: azul celeste no Batistão, notas fiscais queimadas no fogo da corrupção, votos dançando na cordilheira, e pedras gritando no deserto argelino.

E eu, Antônio Glauber, penso: o mundo parece sempre em Série C. Jogando pelo acesso, tropeçando na corrupção, elegendo novos técnicos, tremendo a cada minuto. Mas seguimos torcendo, como torcida proletária da vida, acreditando que um gol basta para mudar o destino.

Afinal, a vida é isso: um estádio lotado de esperanças, um terremoto que nos lembra da fragilidade, uma urna que revela nossos enganos, e uma farmácia que, se fosse honesta, nos venderia o único remédio que realmente funciona: vergonha na cara.