CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 17 de Agosto de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
O domingo amanheceu como quem prepara um espetáculo: o sol abriu a cortina dourada, o vento ensaiou suas falas, e o mundo — sempre ator exagerado — trouxe ao palco suas tragédias, suas comédias e, claro, seus terremotos.
O Dragão Azul e o G-8 de Cristal
O Confiança venceu o Floresta por 1 a 0. Pequeno detalhe no placar, mas imenso no coração do torcedor. Foi como se um goleiro tivesse segurado o próprio destino com as mãos. O time proletário, esse dragão que vez ou outra cospe fogo, conseguiu entrar no G-8 da Série C. Parece pouco? Pois não é. Para o povo azulino, é como se tivesse aberto a porta de Nárnia e encontrado um banquete depois de anos de sopa rala. Cada chute foi um verso, cada defesa um poema, cada gol (no caso, o único) uma epifania em azul celeste.
E o Floresta? Ah, coitado. Virou madeira para o dragão fazer fogueira e aquecer o coração da torcida.
Farmácias, frascos e farsas
Enquanto a bola rolava, em São Paulo o dinheiro escorria por corredores secretos. O Ministério Público investiga um esquema bilionário de corrupção: farmácias que não vendiam apenas remédios, mas também ilusões tributárias. O ex-dono da Farma Conde acusou a Ultrafarma de sonegar até 60% do que vendia. Sessenta por cento! É quase como vender uma cartela de aspirina e, em vez de receita médica, entregar um manual de como desaparecer com dinheiro.
O remédio que deveria curar virou veneno de cifras escondidas. O farmacêutico, que deveria dar conselhos sobre dores de cabeça, agora é acusado de fabricá-las em escala industrial. No balcão, em vez de “pode tomar de 8 em 8 horas”, dizia-se: “pode esconder de 8 em 8 milhões”.
Bolívia: o fim de uma missa longa demais
Na Bolívia, o domingo não foi de futebol nem de comprimidos, mas de urna. O MAS, partido que reinava há quase duas décadas, finalmente desceu do altar. Evo Morales e Arce brigaram tanto pelo trono que o povo decidiu tirar o tapete inteiro. O partido que já foi motor de esperança não passou de 3,2% dos votos. Para quem governava com discursos de epopeia, virar nota de rodapé eleitoral é como sair de presidente a figurante em novela das seis.
Agora, dois candidatos disputarão o segundo turno: Paz Pereira, com 32%, e Tuto Quiroga, com 26%. O inédito está na palavra inédito: nunca houve segundo turno na Bolívia. O povo andino, cansado de promessas mais repetidas que novela mexicana, resolveu mudar o canal.
As lembranças do tempo de vacas gordas — ou melhor, de gás gordo — já não enchem a panela. O gás, que um dia inflou a economia, agora é como balão murcho esquecido no canto da sala. A inflação subiu, os dólares sumiram, e a paciência do eleitor virou pó mais fino que folha de coca mascada na feira.
Argélia: a terra treme, o mundo se cala
E para coroar o domingo, a Argélia tremeu. Um terremoto de 5,8 graus sacudiu Tebessa como se fosse despertador de Deus. A terra, cansada de carregar tanto peso humano e suas trapalhadas, resolveu espreguiçar os ossos. O problema é que, quando a terra se espreguiça, gente cai, casa racha, memória se despedaça.
Na televisão, anunciaram o tremor como quem lê a previsão do tempo: “boa noite, amanhã sol, máxima de 30 graus, e hoje um terremoto, magnitude 5,8, nada mais”. Mas para quem sentiu o chão balançar, o mundo virou tambor de escola de samba em plena madrugada.
Epílogo
O domingo de 17 de agosto de 2025 foi um caleidoscópio: azul celeste no Batistão, notas fiscais queimadas no fogo da corrupção, votos dançando na cordilheira, e pedras gritando no deserto argelino.
E eu, Antônio Glauber, penso: o mundo parece sempre em Série C. Jogando pelo acesso, tropeçando na corrupção, elegendo novos técnicos, tremendo a cada minuto. Mas seguimos torcendo, como torcida proletária da vida, acreditando que um gol basta para mudar o destino.
Afinal, a vida é isso: um estádio lotado de esperanças, um terremoto que nos lembra da fragilidade, uma urna que revela nossos enganos, e uma farmácia que, se fosse honesta, nos venderia o único remédio que realmente funciona: vergonha na cara.




