CRÔNICA
Crônica – “Nazilde, a Mestra de Sonhos”
Por Professor Antonio Glauber – Japaratuba-SE
No final de uma manhã que parecia comum, o silêncio pesou mais do que o céu de nuvens carregadas. Recebi, com o coração apertado e os olhos marejados, a notícia do falecimento de Dona Nazilde. Um nome, uma mulher, uma história – dessas que não se apagam mesmo quando a vida parece se recolher em silêncio.
Nazilde não foi apenas uma ex-aluna. Ela foi um marco. A primeira página de um livro que comecei a escrever quando iniciei minha jornada como professor da Escola Municipal Mário Trindade Cruz, em Pirambu no ano de 2001. Era a turma do EJA – Ensino de Jovens e Adultos – e ela, com seu sorriso tímido e olhos cheios de esperança, me disse que tinha um sonho:
“Quero aprender a ler pra contar estória pra minha netinha.”
Naquele instante, percebi que ensinar seria muito mais que passar conteúdo. Seria tocar sonhos.
Dona Nazilde lia o mundo com o coração. E mesmo quando as letras ainda se embaralhavam, sua alma já narrava histórias. Histórias de superação, de coragem, de amor à família e à cultura. Quando aprendeu a decifrar as palavras nos livros, passou também a recontar, com orgulho, os capítulos que ela mesma escrevia todos os dias na história viva de Pirambu.
E como esquecer os encontros casuais nas ruas da cidade? Era um abraço apertado, um olhar de gratidão e o mesmo gesto que me desmontava:
“Meu professor!” – ela dizia com uma ternura que só ela sabia guardar na voz.
Naquele momento, eu não era mais só um educador; era um personagem da trajetória dela, e ela, da minha.
Nazilde também foi mestra. Mestra das tradições, guardiã das raízes pirambuenses, foi fundadora do grupo de dança folclórica Ilariô de Pirambu, mulher que bordou com as mãos e com a alma os saberes de um povo inteiro. Sua presença na cultura de Pirambu é imortal: está nos cantos, nos festejos, nos gestos e nas sementes que deixou plantadas em tantas gerações.
Hoje, Pirambu chora. A rua ficou mais silenciosa, e a cultura, mais órfã. Mas o céu… o céu ganhou uma contadora de histórias, uma aprendiz que virou estrela, uma avó que sonhava com livros e agora caminha entre versos de luz.
Aos familiares, deixo meus sentimentos mais sinceros. Que a memória de Dona Nazilde seja sempre uma bênção. Que sua vida continue sendo lida nas páginas do afeto, do respeito e da saudade.
Vá com Deus, Dona Nazilde.
Pirambu está de luto.
Mas o céu está em festa.




