CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 23 de abril de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
Neste 23 de abril, o Brasil acordou com os sinos dobrando em Roma, as carteiras vazias em Brasília e os punhos erguidos em Aracaju. Era como se o mundo tivesse vestido luto, protesto e desconfiança, tudo no mesmo paletó amarrotado da quarta-feira.
Comecemos com os mestres — ah, os professores! Esses jardineiros de ideias que, ao invés de flores, têm recebido pedras, cortes e silêncio. Em Sergipe, eles disseram “basta” com a voz rouca de quem ensina mesmo sem giz, de quem resiste mesmo com a alma cansada. Não foi apenas uma paralisação, foi um grito ancestral, um “acorda Brasil!” com sotaque de resistência. Um coro de vozes que, mesmo silenciado nas pautas da grande mídia, ecoa nos corações dos que ainda creem na força do ensino como lanterna em tempos de apagão ético.
Enquanto isso, em outro canto do noticiário, o Ministério Público acendeu uma luz futurista — e um tanto poética — ao discutir pontos de recarga para carros elétricos em Sergipe. Ironia fina: no estado onde professores pedem socorro com cartazes feitos à mão, cogita-se modernidade sobre rodas silenciosas. É como plantar postes de luz em uma vila sem escola. Queremos o progresso, sim, mas que ele venha de mãos dadas com a justiça social — e não nos atropelando com bateria de lítio.
E então, no palco trágico da política nacional, uma ópera bufa se desenrola no teatro do INSS. Descobriu-se que entre 2019 e 2024, as mãos invisíveis da corrupção andaram mais ativas que dedos de pianista. R$ 6,3 bilhões foram dançando valsa para fora dos bolsos dos aposentados, aqueles heróis anônimos que passaram a vida inteira contribuindo com suor para hoje receberem migalhas com desconto indevido — sem saber, sem querer, sem poder reagir.
As associações fantasmas prometeram planos de saúde que não curavam e academias que jamais abriram as portas. Era como vender perfume com frasco vazio ou oferecer aurora boreal no sertão nordestino. E o que mais dói: falsificaram assinaturas, falsificaram esperanças. Transformaram o benefício em boleto, o descanso em dívida, o direito em desdém.
No meio disso tudo, no coração de Roma, o corpo do Papa Francisco começou a ser velado na Basílica de São Pedro. O Papa da simplicidade, da empatia, dos gestos miúdos que mudavam gigantes. Enquanto aqui, os poderosos falsificavam assinaturas de velhinhos, lá, uma multidão assinava com lágrimas um “obrigado” ao pontífice que tentou ensinar que fé e poder não precisam ser inimigos — e que a verdadeira autoridade é aquela que lava os pés, não que pisa nas cabeças.
Hoje, portanto, foi dia de luto, luta e lucidez. O Brasil parece uma sala de aula onde o professor saiu pra protestar, o diretor foi demitido por desfalque, e os alunos… os alunos seguem esperando uma lição que valha a pena aprender.
Que a morte do Papa não seja apenas uma notícia, mas uma metáfora: que morra em nós a indiferença, o silêncio diante da injustiça e a fé cega no sistema que falha.
E que nasça, quem sabe, um Brasil onde o aposentado não seja mais assaltado com caneta, o professor não precise gritar para ser ouvido, e onde as baterias elétricas sejam, de fato, para iluminar, e não para camuflar a escuridão social.




