CRÔNICA
O Silêncio que Apanha Calado
Crônica do Professor Antonio Glauber
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
A sociedade é um teatro curioso. No palco da vida, alguns papéis já vêm prontos, escritos com tinta grossa e preconceito antigo. O homem, dizem, é rocha. É muralha. É um touro bravo que aguenta pancada do mundo sem sequer franzir a testa.
Mas a verdade — ah, essa danada da verdade — às vezes aparece como um espelho quebrado no chão da sala: reflete pedaços da realidade que muita gente prefere não enxergar.
Existe uma violência que caminha silenciosa pelos corredores da vida doméstica. Não faz manchetes, não aparece em campanhas publicitárias, não vira debate nas mesas redondas das redes sociais. É a violência contra homens dentro de relações afetivas.
E antes que alguém levante a sobrancelha como quem duvida da chuva em dia de nuvem preta, é preciso dizer com todas as letras: violência não tem gênero, tem agressor e vítima.
Muitos homens vivem histórias que caberiam em romances tristes. São xingados, humilhados, ameaçados, empurrados contra a parede invisível da vergonha. Alguns apanham. Outros são esmagados por palavras que ferem mais que soco. Só que o mundo espera deles uma postura de super-herói de aço.
Denunciar? Nem pensar.
Porque o medo não é só da agressão. O medo maior é da gargalhada da sociedade. É ouvir alguém dizer:
— “Como assim você apanhou de mulher?”
A pergunta vem carregada de deboche, como se dor tivesse gênero.
E assim nasce um silêncio pesado. Um silêncio que se senta à mesa, dorme na cama e acompanha o homem até o trabalho. Um silêncio que vira companheiro indesejado, como uma sombra que não larga o pé.
Isso não significa, é claro, negar uma realidade grave: a violência contra mulheres ainda é um problema enorme e histórico que precisa continuar sendo combatido com firmeza. Mas justiça não pode ser uma balança que pesa apenas de um lado.
Quando ignoramos a dor de alguém apenas porque ele é homem, estamos criando uma nova forma de injustiça.
A verdade é simples, mas muita gente prefere complicar: ninguém merece viver com medo dentro da própria casa.
Nem homem.
Nem mulher.
Nem ninguém.
Uma sociedade realmente civilizada não escolhe quem merece proteção. Ela protege todos.
Porque a violência, quando entra pela porta, não pergunta o sexo da vítima. Ela só destrói.
E o silêncio…
Ah, o silêncio.
Esse às vezes bate mais forte que qualquer tapa.




