CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 06 de março de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
Caro(a) leitor(a), abra as páginas do jornal da vida, sacuda o pó da rotina, ajeite os óculos da alma e venha comigo, porque o noticiário desta sexta-feira, 6 de março de 2026, amanheceu com a sutileza de um rojão estourando dentro da cristaleira. Em Sergipe, o Ministério Público de Contas acendeu a luz amarela — quase vermelha, quase carnavalesca — ao apontar que os gastos com festividades nos municípios já chegaram a R$ 415 milhões em 2026, espalhados por 70 cidades, superando com folga os R$ 235 milhões registrados em todo o ano de 2025.
E eu fiquei pensando, meu povo: Sergipe virou uma espécie de salão de festas com teto furado. Chove confete sobre o orçamento, mas falta guarda-chuva para segurar a realidade. O cofre público, coitado, parece aquelas carteiras de trabalhador no fim do mês: magro, tossindo, pedindo água e um café sem açúcar. Há município que mal consegue tapar o buraco da rua, mas já ensaia contratar o clarinete do luxo, a sanfona do exagero e o trio elétrico da vaidade. O dinheiro dança mais do que foliã em praça pública, enquanto a necessidade fica do lado de fora, com a sandália na mão e cara de quem perdeu o último ônibus.
Do outro lado do tabuleiro nacional, a Petrobras apareceu exibindo um lucro líquido de R$ 110,1 bilhões em 2025, alta de cerca de 200% em relação a 2024, sustentada pelo aumento de produção de óleo e gás, mesmo com a queda de 14% no preço do Brent no ano. E aí o brasileiro olha para a bomba de combustível com aquela cara de romance mal resolvido: a Petrobras sorri com dentes de ouro, mas o motorista continua fazendo conta até para espirrar. É como se a empresa estivesse servindo banquete em porcelana chinesa, enquanto o povo, no térreo da existência, disputa a última colher de feijão no prato da sobrevivência. Lucro é importante, claro que é. Mas, neste país, até o lucro precisa prestar vestibular moral, porque toda cifra bilionária no alto da torre provoca eco aqui embaixo, no bolso do trabalhador, onde cada centavo tem CPF, RG e certidão de sofrimento.
E como se o céu não bastasse para carregar turbulência, a Anac aprovou novas regras voltadas aos passageiros indisciplinados, mirando agressões físicas ou verbais, tumultos e danos à infraestrutura aeroportuária. A proposta vinha sendo debatida publicamente nesta semana e foi pautada para deliberação da Diretoria Colegiada nesta sexta-feira. Confesso que achei até pouco. Tem sujeito que entra no avião pensando que cabine é extensão do bar da esquina e que cartão de embarque é certificado de grosseria internacional. O aeroporto virou, às vezes, um teatro de maus modos, onde o passageiro troca educação por chiliques e imagina que gritar com aeromoça é argumento. Pois muito bem: civilização não é bagagem opcional. Quem não sabe viajar sem arruaça merece conhecer, no mínimo, o check-in da própria vergonha.
Mas o mundo, esse velho bêbado que tropeça nos próprios mapas, resolveu hoje beber gasolina no gargalo da geopolítica. Os preços do petróleo dispararam nesta semana em meio à crise no Oriente Médio e à paralisação de parte do fluxo de hidrocarbonetos do Golfo Pérsico. Ao mesmo tempo, um porta-voz da Guarda Revolucionária do Irã desafiou Donald Trump a mandar navios dos EUA para escoltar petroleiros pelo Estreito de Ormuz, depois de o presidente americano ter dito que a Marinha poderia fazê-lo, se necessário. O planeta parece um botijão de gás em cima de uma fogueira de egos. Cada fala vira fósforo. Cada ameaça veste coturno. Cada declaração vem com cheiro de pólvora e cotação do barril. O petróleo, esse sangue escuro da economia, voltou a pulsar como febre no corpo do mundo, enquanto os senhores da guerra brincam de xadrez usando civis como peões e continentes inteiros como tabuleiros descartáveis.
Como se não bastasse, Washington emitiu nesta sexta uma licença permitindo certas transações com ouro de origem venezuelana, num gesto de flexibilização que veio logo após visita de alto nível ao país focada no setor de mineração. Ah, a política internacional… essa senhora que condena com uma mão e assina licença com a outra. O ouro muda de dono, de discurso e de conveniência mais rápido do que promessa em véspera de eleição. Moral geopolítica, caro leitor, às vezes é igual guarda-chuva de papel: parece bonita na fotografia, mas derrete na primeira chuva de interesse estratégico.
E no meio desse vendaval de cinismo, ainda chegou a notícia de que o confronto entre Paquistão e Afeganistão já matou 56 civis afegãos, incluindo 24 crianças, segundo a ONU, além de ferir mais de uma centena e deslocar dezenas de milhares de pessoas. Quando a guerra encosta na fronteira, a infância vira estilhaço. Criança, que devia estar brigando apenas com o dever de casa, aparece na contabilidade da morte feita por homens engravatados, fardados ou fanatizados. Não há argumento estratégico que lave o sangue de menino. Não existe geografia capaz de explicar o mapa de uma boneca caída na poeira depois do bombardeio. O noticiário fala em “conflito”, mas a palavra correta, muitas vezes, é amputação da esperança.
E como se o absurdo ainda tivesse fôlego de maratonista, Donald Trump voltou ao palco dizendo, em essência, que não se preocupa se o futuro governo do Irã será democrático, desde que trate bem os Estados Unidos e Israel; reportagens também mostram sua disposição de influir na sucessão do comando iraniano. A democracia, veja só, virou produto opcional na prateleira do império: leva quem quiser, desde que o freguês sorria na foto e agradeça no caixa. É o velho mundo vendendo liberdade em prestações, mas exigindo submissão à vista. Há falas que não saem da boca — saem da arrogância. E há líderes que confundem o planeta com quintal de casa, como se povos inteiros fossem móveis a serem rearrumados segundo o capricho do dono.
No fim das contas, caro leitor, o jornal da vida de hoje veio impresso em tinta de festa, petróleo e sangue. Em Sergipe, há prefeituras sambando com milhões enquanto a prudência assiste sentada no meio-fio. No Brasil, a Petrobras exibe músculos de gigante enquanto o povo segue medindo o passo para não rasgar o sapato da sobrevivência. Nos aeroportos, tenta-se conter a epidemia da brutalidade. E, lá fora, o mundo continua sendo administrado por homens que brincam com fogo num depósito de gasolina, enquanto crianças contam mortos e mães contam ausências.
E eu, daqui de Japaratuba-SE, fecho esta página com o coração amassado e a ironia afiada, porque o noticiário de hoje parece ter sido escrito por um dramaturgo bêbado, desses que misturam carnaval com Apocalipse e chamam isso de normalidade. Mas não é normal, não. Nunca será normal. A festa sem juízo não é cultura: é maquiagem no rombo. O lucro sem sensibilidade não é triunfo: é espelho sem povo. A guerra sem remorso não é estratégia: é a falência moral da espécie.
Leitor(a), guarde isto: quando o mundo começar a achar natural demais o desperdício, o abuso, a grosseria e a morte, é sinal de que a humanidade está precisando urgentemente reaprender a ser gente. E ser gente, meu amigo, minha amiga, ainda é o ato mais revolucionário que existe.




