CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 02 de janeiro de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 02 de janeiro de 2026
Publicado em 03/01/2026 às 9:29

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

O dia 02 de janeiro acordou com gosto de ressaca moral e cheiro de ferro velho da consciência. O calendário ainda bocejava — mal tinha lavado o rosto do ano novo — quando a realidade bateu à porta com a delicadeza de um aríete. “Bom dia”, disse ela, empurrando a notícia com o cotovelo.

Em São Cristóvão, o amor resolveu passar pela revista íntima da ironia. Um casal de idosos, mãos enrugadas de história e olhos cansados de promessas, tentou atravessar o portão do presídio levando celulares escondidos em pedaços de carne. A carne, ali, não era só boi: era metáfora crua da fome de comunicação num mundo que se alimenta de telas. O afeto foi embalado a vácuo, temperado com desespero, embrulhado na esperança clandestina de um “alô”. Mas a lei, essa senhora de voz metálica, apitou falta. A cena parecia um teatro do absurdo: amor empanado, tecnologia recheada, culpa assada em fogo alto. O filho, condenado por crimes pesados, aguardava do outro lado — e o Brasil, do lado de cá, mastigava a notícia com os dentes do sarcasmo. Quando a justiça entra na cozinha, o cardápio vira ironia: há crimes que ganham molho fino e outros que apodrecem sem geladeira.

Enquanto isso, em Brasília, o papel resolveu tremer — não de medo, mas de desconfiança. O presidente do Tribunal de Contas da União puxou a lupa do rigor e mandou inspecionar documentos do banco Master no cofre invisível do Banco Central. Foi como acender a luz no porão da economia: poeira levantou, ratos correram, e a verdade tentou esconder o rosto atrás de números bem penteados. O dinheiro, esse bicho arisco, costuma vestir terno e gravata, mas deixa pegadas no tapete. Inspeção técnica é o nome elegante de quem desconfia que o cofre canta afinado demais. E o país, sentado na plateia, aprende de novo que transparência não é vidro — é hábito.

Do outro lado do mapa, o chão do México resolveu falar alto. Um terremoto de 6,5 sacudiu Guerrero e fez a Cidade do México dançar um bolero nervoso. Prédios respiraram fundo, copos tilintaram como sinos de alerta, e a terra — essa mãe antiga — deu um puxão de orelha nos distraídos. Um homem de 60 anos caiu; doze pessoas sentiram na pele o abraço brusco do planeta. A natureza não pede licença nem faz discurso: ela escreve em placas tectônicas, pontua com rachaduras, assina com tremores. A vida, ali, foi vírgula; a morte, ponto final. E o mundo, esse aluno relapso, prometeu estudar — promessa que costuma durar até o próximo abalo.

Assim foi o 02 de janeiro: um dia que misturou carne e sinal, papel e lupa, chão e susto. Um dia que ensinou, com humor amargo e poesia nervosa, que o amor pode ser contrabando, o dinheiro pode sussurrar mentiras, e a terra pode perder a paciência. O ano mal começou e já pediu atenção, ética e um pouco menos de hipocrisia no tempero.

Feche o jornal. Respire. O ano segue — tropeçando, ironizando, tremendo — e nós, passageiros desse trem sem freio, precisamos aprender a ler os sinais antes que virem ruído.