CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 01 de janeiro de 2026 – As primeiras pancadas do ano
Os primeiros atos de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O ano mal acordou e já tropeçou nos próprios cadarços. 01 de janeiro de 2026 abriu os olhos com ressaca de fogos, cheiro de pólvora no ar e uma pressa estranha — como quem diz: “Não se iludam, eu não prometi ser fácil.” O calendário ainda bocejava quando o mundo, impaciente, puxou a cadeira e começou a bater na mesa.
Em Campo do Brito, o vento decidiu estrear como vilão principal. Não soprou: empurrou. Não passou: invadiu. Telhas voaram como pássaros sem rumo, e a tranquilidade do balneário foi arrancada do telhado junto com a inocência do réveillon. A estrutura, disseram, estava “em boas condições”. Estava, sim — até o vento chegar com seu diploma em arrogância climática. Feridos foram levados ao hospital, outros seguiram por conta própria, porque o brasileiro, quando cai, levanta primeiro e pergunta depois. O ano começou avisando: até o céu anda de humor instável.
Enquanto isso, em Aracaju, a fé vestiu branco e entrou no mar com passos de esperança. Bom Jesus dos Navegantes desfilou sobre ondas carregadas de promessas, lágrimas e pedidos sussurrados. O sal do mar misturou-se ao sal dos olhos. Barcos viraram orações flutuantes, e o povo pediu proteção — contra a fome, contra a violência, contra a política e, se possível, contra o próprio ano. A fé, essa bóia invisível, segurou quem ainda acredita que o amanhã pode ser menos áspero.
Na Maternidade Lourdes Nogueira, o ano nasceu dez vezes. Dez choros inauguraram 2026 como sinos de carne e pulmão. Dez bebês chegaram anunciando que, apesar de tudo, a vida insiste. O choro deles soou mais alto que os fogos da noite anterior. Eram pequenos lembretes de que o mundo continua sendo refeito — mesmo quando os adultos fazem questão de bagunçar a obra.
Mas o fogo, sempre ele, resolveu marcar presença. Na Zona Oeste de Aracaju, as chamas começaram tímidas, escondidas na vegetação, e depois ganharam coragem, dentes e apetite. Avançaram sobre o pátio do BPRv e mastigaram veículos como se fossem papel velho. O fogo não pede licença, não respeita placa nem autoridade. Ele ensina — queimando — que descuido também é combustível.
E enquanto uns perdiam telhas, carros e sossego, outros ganharam R$ 1,09 bilhão. A Mega da Virada espalhou riqueza como quem joga confete dourado sobre a multidão. Seis apostas dividiram o maior prêmio da história. Seis felizardos ficaram ricos; milhões continuaram com a mesma vida de antes e um leve gosto de “quase”. O dinheiro, esse Deus moderno, fez milagres seletivos. Para uns, virou champanhe; para outros, apenas estatística.
Na política, o ano estreou com aquele velho roteiro reciclado. Bolsonaro saiu do hospital direto para a prisão da Polícia Federal — um enredo que parece novela reprisada em horário nobre. Lula, por sua vez, sancionou diretrizes do Orçamento de 2026 e vetou o aumento do Fundo Partidário, como quem tenta dizer: “Calma, a festa não é só para os partidos.” O Congresso quis engordar o próprio prato; o veto veio como guardanapo moral — pequeno, mas simbólico.
Lá fora, o mundo também acordou nervoso. Nova York ganhou um prefeito que promete provar que a esquerda sabe governar. Palavras grandes, expectativas maiores ainda. Enquanto isso, no Irã, o povo voltou às ruas. A crise econômica apertou o pescoço da paciência, e os protestos explodiram como panela de pressão esquecida no fogo. Mortes, confrontos, gritos. O eco de Mahsa Amini ainda paira no ar, lembrando que direitos humanos não expiram com o calendário.
Assim começou 2026: com vento arrancando telhas, fé navegando mares, bebês chorando futuros, fogo devorando descuidos, dinheiro caindo do céu para poucos, política ensaiando os mesmos passos e o mundo protestando contra si mesmo.
O ano mal começou e já está suado. Ainda sem capa, sem título definitivo, sem pedir desculpa. E nós, personagens desse romance coletivo, seguimos — com ironia no bolso, esperança no fundo da gaveta e a certeza de que, se sobreviver ao primeiro dia, talvez dê para aguentar os outros trezentos e sessenta e cinco.
Porque 2026 chegou avisando: não será um poema fácil, mas ainda pode ser escrito.




