ARTIGO

O Espectro Não Colapsou:

O Espectro Não Colapsou:
Publicado em 15/03/2026 às 21:53

A Ciência Subcategoriza, Não Exclui

Por Abdias Clesio

Quando Uta Frith, uma das mais renomadas pesquisadoras do autismo, declarou recentemente que o “espectro colapsou” e que pessoas sem deficiência intelectual deveriam ser reclassificadas como “hipersensíveis”, um certo tipo de debate se acendeu. Respeito sua trajetória, mas discordo profundamente de sua conclusão — e discordo não por ativismo ou por uma posição pessoal, mas por um princípio básico da epistemologia científica: categorias amplas não são problemas a serem resolvidos com exclusão, mas com subcategorização.

A Lógica da Ciência: Refinar, Nunca Expulsar

A ciência lida com a diversidade criando nichos mais específicos dentro de categorias gerais. A biologia não deixou de chamar baleias e morcegos de mamíferos porque são diferentes entre si; criou ordens, famílias e gêneros. A medicina não aboliu o termo “câncer” diante da existência de centenas de tipos; desenvolveu classificações por origem celular, perfil genético e prognóstico. O caminho científico diante da complexidade é refinar, nunca expulsar.

É exatamente isso que a pesquisa mais recente nos mostra. Em julho de 2025, um estudo publicado na Nature Genetics [1] fez o que a ciência manda fazer. O próprio título do estudo — “Decomposição da heterogeneidade fenotípica no autismo” — já enuncia o programa científico correto: decompor, não excluir. Analisando mais de 5 mil crianças autistas, os pesquisadores identificaram quatro subtipos clínicos distintos, baseados em padrões de linguagem, cognição e socialização:

Subtipo 1 (37%): Desafios sociais e comportamentais, sem deficiência intelectual, com alta comorbidade com TDAH e ansiedade.
Subtipo 2 (34%): Desafios moderados, desenvolvimento dentro do esperado, poucas comorbidades.
Subtipo 3 (19%): Atraso na linguagem, deficiência intelectual frequente, mas sem ansiedade proeminente.
Subtipo 4 (10%): Amplamente afetados, com atrasos severos, deficiência intelectual e epilepsia.

O estudo não propõe que os subtipos 1 e 2 deixem de ser autistas. Propõe exatamente o oposto: que enriqueçamos o diagnóstico com essa informação adicional. Em vez de dizer apenas “autismo nível 1”, poderemos dizer “autismo nível 1, perfil de desafios sociais e comportamentais”. Isso permite terapias mais personalizadas e alocação mais justa de recursos. Embora a formalização clínica desses subtipos leve tempo, a direção da subcategorização é o caminho científico correto — e não a exclusão sumária proposta por Frith, que representa um atalho anticientífico.

A Quem Interessa Excluir 71% do Espectro?

Diante disso, a pergunta que permanece é: a quem interessa ignorar essa solução científica e simplesmente expulsar 71% das pessoas do espectro? A especulação a seguir não tem caráter acusatório — é uma provocação legítima sobre os efeitos políticos e sociais de discursos que, intencionalmente ou não, podem justificar cortes de gastos e negação de direitos:

• Aos planos de saúde e sistemas públicos, interessa reduzir custos: quanto menos diagnósticos de TEA, menos terapias a custear.
• A governos com políticas de inclusão, interessa diminuir estatísticas de prevalência para aliviar pressões orçamentárias.
• A certos setores da pesquisa genética, interessa uma amostra “pura” de autistas com mutações raras de alto impacto.
• A clínicas especializadas em autismo “clássico”, pode interessar concentrar recursos nos casos de maior suporte, como se os demais fossem uma “diluição” do diagnóstico.

É importante ressaltar que a alta comorbidade, como a observada no Subtipo 1, não invalida o diagnóstico de autismo. Pelo contrário: é uma característica intrínseca de certos perfis, onde TDAH e ansiedade interagem com uma base neurológica distinta, exigindo abordagem integrada — não a fragmentação diagnóstica que simplifica indevidamente a complexidade clínica.

O Efeito Prático: Desassistir Milhões

Não estou dizendo que Frith age de má-fé. Ela pode genuinamente acreditar que está protegendo os mais vulneráveis ao reservar o rótulo de autismo a quem tem deficiência intelectual. Mas o efeito prático de sua posição é o mesmo: desassistir milhões de pessoas que, sem o diagnóstico, perdem acesso a terapias, acomodações escolares, compreensão social e, em muitos casos, a própria chave para se entenderem.

“Ler essa entrevista hoje me entristece. Ela parece contradizer seu próprio trabalho e pesquisas anteriores.”
Brian Bird, ativista autista

Brian Bird participou do documentário Living with Autism — um projeto idealizado pela própria Frith em 2014, que amplificou vozes de autistas diagnosticados tardiamente. Hoje, Frith quer silenciar essas mesmas vozes. A pergunta que ecoa é: o que mudou? Que conversas, que pressões, que interesses a levaram a abandonar a complexidade que ela mesma ajudou a construir?

O Mascaramento e a Armadilha dos Biomarcadores

Embora a pesquisa sobre o mascaramento autista ainda enfrente desafios na busca por biomarcadores objetivos, a ausência de um marcador “duro” não invalida a experiência vivida e o sofrimento relatado — elementos fundamentais no diagnóstico psiquiátrico. Descartar décadas de relatos sobre o esforço exaustivo de “parecer normal” seria um desserviço à ciência e à compreensão da neurodiversidade, cedendo à fragilidade de exigir apenas evidências quantificáveis.

Tony Attwood e Michelle Garnett fizeram uma observação precisa ao comentar o debate: o estudo da Nature Genetics identificou um grupo de autistas com marcos de desenvolvimento normais, mas altas taxas de ansiedade e depressão — exatamente o perfil que Frith quer excluir. Ou seja, a pesquisa que ela própria mobiliza como evidência da diversidade do espectro não apoia sua conclusão: apoia, isso sim, a necessidade de subcategorizar.

A Ferramenta que a Ciência Já Nos Deu

A ciência nos deu a ferramenta: chama-se subcategorização. Ela permite manter a categoria geral — autismo — e, dentro dela, criar nichos que respeitem as especificidades de cada perfil. Não há necessidade de expulsar ninguém. A necessidade real é outra: garantir que os recursos cheguem a todos que precisam, de forma proporcional às suas necessidades.

Conclusão

O espectro não colapsou. Ele sempre foi diverso, e agora temos dados para descrever essa diversidade com precisão inédita. O que colapsa, neste debate, é a disposição de olhar para os dados com honestidade intelectual. O que colapsa é a coragem de enfrentar a pergunta desconfortável: a quem serve uma ciência que exclui em vez de refinar?

É tempo de abraçar a complexidade e lutar por uma ciência que acolhe, subcategoriza e serve a todos os autistas, independentemente de perfis ou níveis de suporte.

Fico com a ciência que subcategoriza.
Fico com os dados que acolhem a complexidade.
E fico com a certeza de que, enquanto houver pesquisadores dispostos a olhar para os 71% e vê-los como parte legítima do espectro, o futuro será mais justo para todos — de qualquer nível, de qualquer perfil, de qualquer subtipo.

REFERÊNCIAS

[1] LITMAN, Aviya et al. Decomposition of phenotypic heterogeneity in autism reveals underlying genetic programs. Nature Genetics, v. 57, p. 1234–1245, 9 jul. 2025.

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