CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 02 de Fevereiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
Fevereiro abriu os olhos no dia 02 como quem acorda com ressaca de manchete. Espreguiçou-se bocejando notícias, tropeçou no próprio calendário e saiu distribuindo absurdos com cheiro de ironia recém-passada. O mundo, esse velho malandro, resolveu brincar de feira-livre: de um lado, perfume importado sem CPF; do outro, botijão de gás com esperança embrulhada; ao fundo, o mar da Polônia vestindo sobretudo e congelando até a metáfora.
Comecemos pela BR-101, km 104, São Cristóvão — um trecho que virou alfândega improvisada do destino. A PRF e a Polícia Civil puxaram o freio de mão da ilegalidade e abriram o porta-malas do espanto: 223 produtos sem comprovação fiscal, como se o carro fosse uma farmácia clandestina com aroma de duty free. Havia eletrônicos querendo ligar o mundo, perfumes tentando maquiar a consciência e medicamentos querendo bombar músculos e silêncios. Botox incluso — porque até a ilegalidade anda preocupada com rugas. O veículo parecia um carnaval de contrabando: cada item sambando fora do compasso da lei, todos sem ingresso, todos querendo desfilar.
O cheiro era sensorial: mistura de colônia importada com suor de nervosismo, clique de aparelho desligado com sussurro de seringa. A lei, personificada, entrou de luvas e lupa, dizendo “chega” com voz de sirene educada. E a ironia piscou: enquanto uns tentam esticar a pele do rosto à força, a realidade insiste em enrugar o país inteiro.
Corta para Brasília, onde a Câmara vestiu terno de compaixão e aprovou a MP do botijão de gás gratuito. Foram 415 votos a favor — um coral afinado cantando “alívio” —, 29 contrários — um murmúrio desafinado —, duas abstenções tímidas e 66 cadeiras vazias, essas personagens invisíveis que sempre faltam quando o gás acaba. O botijão virou metáfora doméstica da dignidade: não aquece só feijão, esquenta a noite, derrete a vergonha, ferve a esperança. Agora o texto segue para o Senado, esse forno onde as ideias assam devagar e às vezes queimam. Que não falte gás político para cozinhar justiça.
E, enquanto isso, a Europa tremeu. O norte da Polônia viu o mar congelar, cena rara como promessa cumprida. O oceano, cansado de tanto aquecimento global, resolveu fazer greve de ondas e virou espelho de gelo. A -22ºC, até a água aprendeu a ficar dura. Peixes pensaram duas vezes antes de filosofar. O vento virou escultor e o frio assinou a obra. A natureza, sempre irônica, deu aula prática: quando a gente esquenta demais o planeta, ele responde com extremos — ora febre, ora calafrio.
Assim, fevereiro seguiu seu desfile: contrabando maquiado, política aquecendo panela vazia, mar congelando poesia. O dia ensinou que o mundo anda querendo botox na ética, gás na dignidade e casaco para a consciência. Entre perfumes sem nota e botijões com propósito, entre gelo no mar e fogo no fogão, fica a reflexão que cutuca: legalidade não é luxo, dignidade não é favor, e a natureza não é figurante.
Fecho a crônica com pausa e suspiro. Porque, no fundo, o dia 02 de fevereiro pediu menos maquiagem e mais verdade; menos ausência e mais presença; menos gelo no coração e mais chama no prato. E que fevereiro, esse mês curto e atrevido, aprenda a ser longo em humanidade.




